ANO: 24 | Nº: 6013

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
05/04/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Seu Edgar

Mesmo que Lars Svendsen tenha afirmado que “todos nós, de alguma maneira, expressamos quem somos por meio de nossa aparência visual”, ele também admitiu que a roupa não tem a capacidade de mostrar as qualidades morais de um indivíduo. Para esse professor, autor de “Moda: uma filosofia”, a roupa pode dizer a faixa de renda ou a qual grupo social o ser humano está vinculado, mas não possui a capacidade de revelar a essência daquele indivíduo. No entanto, se é possível revelar nossa identidade por meio da vestimenta, não poderia se pressupor que alguns valores morais também podem ser apresentados pelo vestuário?

Esse tema, assim como outros que a sociedade contemporânea tende a afirmar ser uma mera questão de gosto, tem a capacidade de melindrar pessoas mais sensíveis. Se tudo é uma questão de preservação das escolhas individuais de maneira egoísta (é comum ouvir que gosto não se discute), como apresentar alguma crítica (com relação ao uso de uma peça de roupa) passível de ser levada a sério e que não seja tachada como preconceito?

Há cerca de um mês, em Bagé, estive com minha noiva em uma grande e popular loja de roupas. No setor dos provadores, verifiquei que um senhor, acompanhado de sua esposa, estava escolhendo camisas sociais para uma festa. Havia uma dedicação e um esmero para que a melhor peça de roupa se encaixasse no seu biótipo. Ter um cuidado com a escolha da roupa demonstra uma intenção estética de se aproximar ao que é belo, um respeito com o evento e com quem efetuou o convite.

Analisei a situação com certa discrição e mentalmente constatei o quão distante nossa sociedade está dessas atitudes. Com a demora habitual, resolvi percorrer a loja e descobri um setor de gravatas. Cada uma delas custava o equivalente a seis exemplares de jornal, ou seja, bastante acessíveis economicamente falando. Selecionei cinco delas. Eis que surge aquele senhor do setor de provadores que, ao ver as minhas escolhas, comenta: “Como é difícil os mais jovens usarem gravatas, camisas... ou pelo menos se vestirem adequadamente”. E ele prosseguiu: “Estava vindo para a loja e vi um grupo de adolescentes gritando e cantando músicas com palavrões... com calças caídas, camisetas largas... aqueles bonés de aba reta... tá difícil de agradar aos olhos e de ter um mínimo de elegância!”. Tentei balbuciar algo simpático aos seus comentários quando ouvi uma atendente da loja dizendo: “Seu Edgar, sua esposa está lhe chamando”. Ele se despediu e assim se encerrou sua análise social.

O filósofo Roger Scruton, em “Por que a beleza importa”, atesta que “a beleza é um valor tão importante quanto a verdade ou a bondade”. Mesmo que seu documentário tenha como foco uma severa crítica à arte contemporânea (que só visa perturbar, quebrar tabus e cultuar a feiura), Scruton admite que ela influencia outras áreas da vida: “Nossa linguagem, música e maneiras estão cada vez mais rudes, autocentradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas”. Para Scruton, estamos perdendo a beleza, o que nos conduz à perda do sentido da vida.

Scruton, com o refinamento intelectual, e Edgar, com as impressões do senso comum, sabem que a percepção moral influencia a beleza. Ambos têm consciência que a perda do culto ao belo é danosa para os valores da sociedade.

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