ANO: 25 | Nº: 6209

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
07/04/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O púlpito

Assim como alguns estádios de futebol foram imaginados para 200 mil pessoas e hoje se reduzem a arenas para pouco mais de 30 mil pessoas, também as igrejas, onde se acotovelavam quase um milhar de pessoas, na Semana Santa, hoje, se encabulam com a centena de abnegados fiéis.
Outrora havia a preparação das sextas-feiras com a obrigatória abstinência de carne; a sequência de novenas; as filhas de Maria "fitas azuis, em virginais esperanças de maridos e salvação"; as damas do Apostolado "ao lado do velho órgão arrumavam as vermelhas insígnias"; Dom Bosco, em seu altar, sorria abraçando suas criancinhas; Nossa Senhora iluminava com manto cerúleo; os sinos repicavam para o lava-pés; na procissão do Encontro, archotes e rezas, "dona Chiquinha Sena cantava verônicas, lençol aberto com a impressa Dor"; os beijos molhados nas "tristes chagas", pecado chegar perto da sagrada Boca; no lenho da cruz desciam lentamente os panos e se cantava "ecce lignum crucis" do qual descerá a "salus mundi". Os santos cobertos com o roxo do sofrimento; aberto o Tabernáculo.
A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo era narrada pelo evangelho de Mateus e não de João, um silêncio abaixava cabeças; os joelhos doíam nas duras taboas; olhos penitentes distraiam as lajes frias, escusas vistas; o turíbulo espalhava incenso em cerimônias que imprimiram pretérito; o coro vibrante; os sacerdotes de batina e sobrepeliz.
As rádios repercutiam música solene, os anúncios substituídos por mensagens de elevação espiritual. As refeições comedidas, peixes tirados de caixa com gelo lá do mercado; o cálice de vinho permitido; a gurizada sonhava com o pontapé de "aleluia", a malhação do Judas: e os bombons do João Turco. Depois, os sinos borrifavam páscoa. A vida, então, ressuscitava.
As antigas orações se faziam pelo Papa, bispos, presbíteros, diáconos e subdiáconos, acólitos, exorcistas, porteiros, mas também pelos pagãos e ainda os "pérfidos judeus", pelos carismáticos e hereges, e dá-lhe refrãos. Hoje ditas preces foram mitigadas depois de Concílios não sendo mais necessário anatemizar os israelitas, pois sabido que os culpados foram os romanos dominadores apoiados pelos corruptos da época. Num missal dos tempos de colégio ainda lê-se frase como "o povo judeu, cego e desvairado, procurou lapidar Jesus Cristo quando o Senhor proclamou a Sua Divindade".
O que estranhei na solenidade de Sexta-Feira Santa, além da escassez de católicos e alteração dos ritos, além da burocrática procissão em honra ao Senhor Morto, foi a ausência do púlpito. Daquele que ficava perto da secretaria, onde o padre, com seus paramentos, solene subia por pequena escada caracol, assomando para ameaçar com o fogo do inferno e intimidar com a castidade. A tribuna de onde pregaram Francisco Costa, Aquino Rocha, padre Zanor e Chicão, padre Germano e os missionários famosos que vinham nos retiros. Tantos aparatos, ornamentos e pratarias se perderam; tantas vestes, adornos e atavias estarão esquecidos; a parte da biblioteca foi salva pelo Tarcísio; ouço que se desapegam de fotos, documentos e quadros, a rica memória da cidade; o acervo documental precioso, chamadas, fichas, tudo de grande interesse para o Museu e Arquivo de que Bagé se envaidece. Onde andam os periódicos colegiais e de círculos culturais onde se formaram líderes e dirigentes? Por que estamos praticando o olvido e descarte? Onde se escondem as lembranças? Confesso a Deus Todo Poderoso e a vós...
Enfim, onde anda nossa fé?
E o púlpito, onde está?

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