ANO: 25 | Nº: 6312
09/04/2018 Cidade

Proteção ao rio Camaquã foi tema de debate que encerrou o 8º BioUrcamp

Foto: Antônio Rocha

Philomena destacou importância do reconhecimento do direito do meio ambiente
Philomena destacou importância do reconhecimento do direito do meio ambiente

De quinta-feira a sábado, debates e rodas de conversa sobre a importância da conservação do meio ambiente saíram do meio acadêmico e tomaram os corredores dos campi central e rural da Urcamp, assim como do Corujão e do complexo cultural do Museu Dom Diogo de Souza, durante a oitava edição do BioUrcamp. E um dos temas mais debatido na atualidade, em Bagé e região, não ficou de fora.
No sábado à tarde, uma das últimas atividades da edição do BioUrcamp foi uma roda de conversa sobre a "Importância dos Rios", com ênfase na discussão sobre o pedido de mineração que a empresa Nexa Resources (antiga Votorantim Metais) solicitou para colocar em prática às margens do rio Camaquã.
Participaram da atividade o professor coordenador do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UfPel), doutor Althen Teixeira, e o doutor em Ecologia e ex-professor da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), Antônio Libório Philomena. A produtora rural e moradora das margens do Camaquã e participante da União Pela Preservação do rio, Vera Collares, também participou da conversa, mediada pela professora Anabela Deble.

Direito da natureza como ferramenta 
Quem abriu a discussão foi Philomena, que classificou o novo prazo concedido à Nexa, pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), de mais seis meses, para esclarecer pontos do projeto, como uma armadilha montada pelo governo e pela mineradora para ganhar tempo e ver se o movimento contra a instalação acalma.
Em seguida, ele apontou que o grande interesse na região não é apenas pelo potencial minerador, e sim pelo baixo custo da água, utilizada em grande escala em projetos de mineração e, até mesmo, em lavouras, como de eucalipto. E isso, segundo ele, nunca deixa reflexos positivos para os municípios afetados. "Mais de 95% da importância economica raramente fica na cidade onde acontecem essas atividades. Então falar que a cidade vai ficar rica com a mineraão é uma grande falácia. Após as empresas explorarem tudo e ficarem ricas, para os municípios só sobra um buraco e contaminação", destacou.
Em seguida, Philomena citou a Índia como exemplo, já que durante décadas o Rio Ganges, principal do país, foi explorado pela mineração e hoje o país ocupa o 131º lugar no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Outro dado apontado por ele foi o alcance da contaminação, que não ficará concentrada apenas na região onde será minerada. Isso porque o rio possui outros afluentes e ligação direta com a Lagoa dos Patos, o que poderia espalhar a contaminação por chumbo para todo o Estado, em diferentes níveis.
O ecologista encerrou sua fala explanando sobre a necessidade de reconhecer o direito de entes não humanos, como um rio. "Esse é um grande passo para a proteção do meio ambiente. Se houver um comitê responsável por responder pelo rio, se torna muito mais fácil acionar a justiça para garantir proteção. Hoje, protegemos os rios para garantirmos água tratada para nós, mas devemos olhar a situação com os olhos do rio e garantir seu direito de correr livremente e com água de qualidade", finalizou.

Sistema circulatório 
Em seguida, Althen Teixeira, professor de Anatomia do curso de Veterinária da UFPel, utilizou uma analogia para explicar a importância dos rios para o meio ambiente, "Um rio chamado Sistema Circulatório". Desta forma, comparou o sistema circulatório animal ao sistema circulatório da natureza, em forma de mananciais hídricos.
"Nosso sistema hídrico está altamente poluído, de diversas formas, e causa reflexos enormes para o ser humano. Esse sistema explorador vai destruir não apenas um rio, mas também a intimidade das pessoas", disse ele, referindo-se à baixa contagem de espermatozóides de homens em idade reprodutiva na atualidade, o que, segundo ele, são alguns dos reflexos da poluição das águas.
Althen comentou, ainda, que há uma grande quantidade de projetos de exploração e mineração às portas do Estado, aguardando o resultado do pedido da Nexa para se inserirem também no solo e água do Rio Grande do Sul. "Se abrir a porteira para um projeto, todos vão achar um jeito de entrar", destacou.

Defesa ao rio
Moradora das margens do Camaquã, Vera salientou a grande mobilização em torno do rio. A comunidade abraçou a causa e tem dificultado a instalação da mineradora na região e espera conseguir a negativa do Estado para a instalação. Ela ressaltou que essa é uma vitória da união. "É necessário que tomemos parte e nos tornemos atores das questões que nos envolvem, não apenas em relação ao rio, mas a tudo na vida em sociedade. Temos que estar a par do que está acontecendo e propagarmos essa ideia", disse.

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