ANO: 24 | Nº: 6063

Fernando Risch

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Escritor
13/04/2018 Fernando Risch (Opinião)

PT e a suposta “união das esquerdas”

No sábado passado, antes da prisão de Lula, apoiadores do ex-presidente subiam em um palanque no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e discursavam nos mais diversos tons. Dentre as falas que se ouviu, muitas delas clamavam por uma “união das esquerdas” para a próximas eleições.

Com uma direita bem definida, com Jair Bolsonaro despontando e representando a extrema-deireita, Alckmin lançando-se novamente como raposa velha do PSDB e Amoêdo e Flávio Rocha encantando corações aqui e ali com seu liberalismo descontrolado, a esquerda precisava focar em alguém para levar a um possível segundo turno.

A lógica seria manter a linha sucessória das pesquisas, com o PT transferindo seus votos para Marina Silva ou Ciro Gomes, os maiores herdeiros de votos de Lula. Mas, como a lógica do PT não é muito clara, a “união das esquerdas” começou natimorta, com um fogo amigo.

Historicamente em conflito com Marina Silva, por declarações contra o ex-presidente ao sair do PT e por apoiar Aécio Neves no segundo turno de 2014, o Partido dos Trabalhadores não fez questão de lhe apontar o dedo na cara por uma defesa a Lula. Já Ciro Gomes, o presidenciável do PDT, amigo pessoal de Lula e ex-Ministro da Integração Nacional no governo petista em 2003, foi jogado às chamas pela indignação do partido na condenação de Lula.

Cobravam de Ciro a presença no sindicato ao lado do ex-presidente e uma assinatura em uma carta aberta em que se afirmava que “eleições sem Lula é fraude”, a qual Ciro negou-se a assinar. O pré-candidato do PDT posicionou-se no Twitter contrário à prisão de Lula, apontando as arbitrariedades do processo, mas os petistas queriam mais, porque queriam Lula, e apenas Lula. Assim, a possibilidade de apoiar Ciro Gomes estava enterrada em várias correntes internas do PT.

Ou seja, para haver uma união das esquerdas, tem que ser a união que o PT quer, nos moldes que o partido definir e, preferencialmente, sem abrir mão da cabeça de chapa. Se não for um petista, tem que ser um braço direito de um petista, como Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos, dois personagens importantes da esquerda brasileira, mas que sequer figuram nas intenções de voto. A outra opção petista, na linha sucessória do partido, é Fernando Haddad, um bom candidato, mas que sofre com a mesma falta de apelo dos pré-candidatos do PCdoB e PSOL.

Nesse dilema existencial do PT, o partido que, segundo pesquisas, transfere 28% das intenções de voto para um candidato indicado, ficará de birra e, possivelmente, fará uma escolha danosa, que não levará um candidato de esquerda para o segundo turno.

Ou o PT entende que o momento não é dele, baixa a cria e se posiciona estrategicamente nas eleições, dando apoio a um dos herdeiros de votos de Lula – Marina ou Ciro – ou o eleitor petista se virá obrigado a votar no tucano Geraldo Alckmin no segundo turno, caso não queira ver Bolsonaro presidente.

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