ANO: 23 | Nº: 5915

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
14/04/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Francisco Sá Antunes, um dos fundadores do Guarany FC

Em texto de 1959 Francisco Sá Antunes alertava que, em 19 de abril de 1907 “fundava-se ali, na Praça da Matriz, na casa de Don Antônio Perez, o Guarany Futebol Clube”, o primeiro com esse nome no Brasil, sendo 11 seus fundadores, por ordem alfabética: Cervantes Perez, Carlos Garrastazu, Carlos Martins Peixoto, Francisco Sá Antunes, Gonzalo Perez, João Guttenberg Maciel, Lucídio Gontan, Manuel Berruti, Riego Perez, Secundino Maciel e Viriato Bicca Nunes, alertando que dita entidade “surgiu sob o bafejo da mais acolhedora simpatia” e que “antes de 40 dias de ser fundado, enfrentou, na antiga praça da Estação Ferroviária, o Sport Clube Bagé, “um simpático quadro” formado por Gedeão Ratto da Silveira, João Maria Machado, o capitão do time Nenito Azambuja, Carlos Ramos e otros. Almejava o autor, naqueles 52 anos, que “há fundadas esperanças de que, os 48 que faltam para seu centenário, sejam percorridos e atingidos galhardamente”, vaticínio que se cumpriu há quase 11 anos.
Francisco Sá Antunes nasceu em 16 de março de 1890, nesta cidade, transcorrendo a infância na estância do pai, Carlos Alberto Rezende Antunes, no Uruguai. Vindo para a cidade aos oito anos de idade, pois recebera os primeiros ensinamentos ainda na fazenda ministrados pela professora Isabel Pereira, frequentou os colégios de Ernesto Hansen, João Carneiro e Fróes. Com 12 anos morreu seu pai, ocasião em que sua mãe, dona Cantídia Sá Antunes assumiu a direção da família mantendo aceso o estudo dos filhos. Francisco, inclusive, teve aprendizado de violino com seu tio Bráulio Louzada e, aos 13 anos já participava de orquestras. Em 1904, matriculou-se no colégio dos salesianos, criado por iniciativa do pároco João Inácio Bittencourt, destacando-se ali como orador, sendo o porta-bandeira do desfile que festejou a inauguração do prédio onde o educandário ainda se sedia.
Aos 15 anos, frequentando o curso de humanidades, empregou-se como aprendiz de eletricista no Centro Telefônico local, tendo a cobrança de contas também a seu encargo. Nessa época, jovem de talento, já escrevia artigos nas edições dominicais dos periódicos da cidade e liderava grêmio literário. Também, nessa época, jogou futebol pelo Sport Clube Bagé; mais tarde, como referido acima, foi um dos 11 fundadores do Guarany Futebol Clube disputando refrega contra seu antigo time, sorrindo a vitória para a equipe em que era o goleiro. Aos 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, recomendado para a firma alemã L. Eissengarthe, onde conheceu Fernando Gafrée, que o instruiu em diversos setores da companhia. Aproveitava para fazer os estudos preparatórios, à noite, e depois a Linha de Tiro. Matriculado em 1912, na Faculdade de Direito, foi o acadêmico que saudou o festejado Porto Carrero e o Conselheiro Cândido de Oliveira, esse diretor da instituição.
Bacharelando-se em 1916, integrou a Sociedade Sul-rio-grandense, de que foi diretor e secretário e também membro do Clube Civilista do Brasil, tendo representado Bagé e Caçapava na convenção que escolheu Ruy Barbosa como candidato à Presidência da República. Retornou ao Rio Grande para advogar em 1917, radicando-se em Santo Ângelo, destacando-se na profissão e prestigiando Pinheiro Machado e Protásio Alves. Com intensa vida política e social, foi nomeado juiz distrital, o que recusou. Depois de repetidas viagens a Bagé, em 25 de novembro de 1918, na residência de Olavo Fontoura de Almeida, casou-se com dona Zebina Almeida Jacintho, retornando a Santo Ângelo, onde residiu até 1921, quando se transferiu para Santa Maria, como advogado e articulista de diversos jornais, participando das campanhas de Arthur Bernardes, para a presidência da República e Assis Brasil para o Estado. Ainda em Santa Maria, associou-se ao pecuarista Turíbio Gomes na criação de gado, sem sucesso. Em 1923, incorporou-se às forças de Pedro Severo, em Dom Pedrito, o que lhe custou uma úlcera gástrica que o impediu de muita movimentação. Emigrou para o Uruguai em 1924, voltando em 1925 para Bagé, integrando-se à Associação Rural. Foi sócio da firma L. Sarmento & Cia Ltda, viajando para Montevidéu e Buenos Aires no interesse da empresa. Agravando-se a saúde, segue com a advocacia, dividindo as áreas de sua mãe e também sua, para o loteamento que deu origem ao Bairro Getúlio Vargas (Povo Novo) antes denominado Vila Carlos Alberto, em homenagem a seu pai. Dirigiu o Diário do Comércio (1928), Toma parte ativa em prol de Getúlio Vargas, reencontrando-se com Oswaldo Aranha, seu colega de faculdade, além de Virgílio de Melo Franco e Maurício Cardoso. Ingressou no Ministério Público do então Distrito Federal, passando a Promotor Público em 1938. Ainda no Rio, foi advogado da Light and Power e membro do Instituto Brasileiro de Cultura. Morou em Petrópolis, em sítio que adquiriu onde se apresentava de botas, bombachas e lenço ao pescoço. Herdou do sogro uma área rural na Ferraria, em Dom Pedrito, retornou aos pagos e com a família e ali construiu uma bela estância onde se dizia sentir como um “monarca”.

O doutor Jônio Ferreira Salles, que prefaciou a publicação póstuma de obra literária de Francisco Sá Antunes, na ambulância que o transladava do aeroporto para o hospital, ouviu-o dizer que “o divino mestre lhe concedera a bênção de rever sua querida Bagé”. Francisco e Dona Zebina foram os pais de dona Yeda Antunes Canneppa Silva, cujo esposo, general Canneppa comandou o então 12º RC e a Polícia Federal. Francisco Sá Antunes é nome da rua que circunda o Estádio Antonio Magalhães Rossel, do Guarany Futebol Clube, no Estrela D’Alva.

Fontes: “Coletânea”, de Francisco Sá Antunes, cópia cedida pelo amigo Nilo Rossel Romero. “Escritores Bajeenses”, de Élida Hernandes Garcia, Praça da Matriz, 2006.

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