ANO: 24 | Nº: 6063

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
14/04/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Rebeldia sem consequência

No meu tempo, muitos jovens eram rotulados como “rebeldes sem causa”. Um perfil recorrente de “filhinhos de papai” que tinham tudo do bom e do melhor ou, pelo menos, que não tinham carência evidente, mas, mesmo assim, se rebelavam contra tudo e contra todos. Reclamavam pelo simples prazer de reclamar, às vezes, até por razões ideológicas, em solidariedade aos mais necessitados quase que como uma espécie de “mea-culpa”, pois achavam ou desconfiavam que, direta ou indiretamente, a sua boa condição financeira poderia ser responsável pela situação precária dos menos afortunados.
Era algo tão presente na época que Chico Anysio chegou a criar o personagem “Jovem” para retratar o perfil com muita ironia e humor. E a banda Ultraje a Rigor popularizou a música “Rebelde sem causa” que continha a seguinte estrofe: “Não vai dar, assim não vai dar / Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar / Não vai dar, assim não vai dar / Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar”.
Em lado oposto, percebia-se, também, a figura dos rebeldes com causa. Pessoas efetivamente necessitadas, que tinham consciência de suas carências e dificuldades e de que, ao menos em parte, elas decorriam das mazelas do sistema, do prevalecimento dos mais ricos e poderosos e das quase intransponíveis barreiras sociais e econômicas para o progresso pessoal e profissional delas. Um quadro difícil que parecia determinar uma inescapável condenação perpétua a uma vidinha super mais ou menos.
Neste grupo, assim como no outro, há exageros, ou seja, gente que fica presa nessa ladainha lamuriosa para justificar sua inércia e falta de atitude. Desiste sem nem tentar ultrapassar as barreiras e vencer as resistências. Fica só se lamentando e amaldiçoando os beneficiados pelo sistema como se fossem os únicos culpados pelo seu infeliz destino e, também, fazendo pouco das conquistas de seus pares que engoliram seu orgulho e se submeteram ao sistema.
No meio, entre os que desistiram e os que se submeteram, encontramos o rebelde com causa, mas sem consequência, ou seja, se submetem, se integram, servem, mas sempre reclamando e alimentando uma revolta indisfarçada com sua condição de subordinado. Considera os beneficiados pelo sistema como adversários ou inimigos. Não faz questão de ser simpático com seus superiores e, apesar de respeitá-los, não perde a oportunidade de lançar pitadas de hostilidade.
Bueno, se naturalmente já é difícil vencer saindo de baixo, imagina implicando com os de cima. Bater de frente com o sistema é dar murro em ponta de faca e por isso é que se trata se uma postura sem consequência, pois como disse Shakespeare: “É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que com a ponta da espada.”
Aceitar as regras do jogo, aproximar-se dos poderosos, ser simpático com eles, desde que não se cometa nenhuma ilegalidade, não faz mal a ninguém. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade de ser notado, valorizado e promovido. Como já se disse “aceitação não é submissão; é sim, medida de maturidade.” Uma versão atualizada da velha lição: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo.”
O fato de alguns ricos e poderosos não estarem nem aí para os "Zé Ninguém", não quer dizer que eles são inimigos dos fracos e oprimidos. Muita gente pobre se deu bem na vida se aproximando da elite e mesmo que vivendo de migalhas, conquistou uma condição melhor e teve boas oportunidades. Já quem preferiu afrontá-los, enfrentá-los, condená-los, via de regra, enfrenta bem mais dificuldades, graças a esta teimosa desinteligência.
Ora, se o vivente acha que os mais ricos e poderosos usam, exploram e se aproveitam dos mais pobres, a resposta mais inteligente seria usar, explorar e se aproveitar deles para se beneficiar também, pois como disse um certo Rodrigo Rodrigues, “Sou completamente submisso ao que me convém.”

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