ANO: 25 | Nº: 6332

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
19/04/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Vários Lulas, dois Sócrates e um Negan

O filósofo Friedrich Nietzsche declarou que “a loucura é rara em indivíduos, mas em grupos, partidos, nações e épocas, é a regra”. O problema é que habitamos uma época em que boa parte do conhecimento nas áreas das ciências humanas se reduziu a um conjunto de meras opiniões ideologicamente marcadas, o que gera uma perda nos critérios de fixação do que pode ser categorizado como típico de um louco. Com isso, a busca da verdade vê-se subjugada a interesses políticos. Eis que a loucura é vista como sanidade pelos loucos.

No dia 07/04/2018, o ex-presidente Lula proferiu um discurso antes de se apresentar à Polícia Federal para cumprir sua pena de prisão. Em sua fala, Lula reforçou uma ideia que está sendo repetida como mantra por seus apoiadores: a de que o ex-presidente é uma ideia passível de multiplicação independente de seu corpo. Assim, “quanto mais dias eles me deixarem lá, mais Lulas vão nascer neste país, e mais gente vai querer brigar neste país, porque, numa democracia, não tem limite, não tem hora para a gente brigar”, disse Lula. Prosseguiu afirmando que não era sua vontade cumprir o mandado de prisão e que foi lhe ofertada uma fuga para o Uruguai, mas que, em razão de sua idade e para evitar que digam que ele está se escondendo, preferiu não descumprir o que foi determinado pela Justiça. Ao término do evento, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, entoou um grito de forma repetitiva e que foi replicado pelos simpatizantes: “Eu sou Lula”. Dias depois, deputados e senadores do PT solicitaram a inclusão do sobrenome “Lula” em seus nomes parlamentares: por exemplo, Gleisi Lula Hoffmann. Mas o endeusamento de líderes carismáticos não é algo típico do... fascismo?

A situação do cumprimento de uma decisão trouxe à memória o caso do filósofo Sócrates. Condenado por corromper a juventude e deturpar alguns assuntos religiosos, esse ateniense resolveu cumprir sua pena (no caso, a morte por ingestão de veneno), a despeito da oferta de fuga realizada por seu amigo, Críton. No entanto, a razão de tal negativa repousa na ideia de respeitar a Justiça e honrar as leis de Atenas: se a lei vale para todos, não estaria Sócrates tentando destruí-la de forma particularizada ao fugir? Em suma, Sócrates respeitou a decisão (correta ou não) com base em princípios e por respeito aos fundamentos públicos. Lula não poderia estar mais distante desse filósofo.

Mas Lula está muito próximo de outro Sócrates: José Sócrates. Esse, ex-primeiro-ministro português (2005-2011), também foi alvo de investigações (e prisão) em seu país. Motivos? O fato de ter vivido em Paris com grandes quantias emprestadas (sem registro bancário) por um amigo e por ter habitado um apartamento de luxo que não estava em seu nome. É interessante como surgem tríplex, sítios, apartamentos e empréstimos vultosos aos donos do poder.

Para quem conhece a série televisiva “The Walking Dead”, Negan é um vilão de dar calafrios. Na história, que se passa após um apocalipse zumbi que destruiu o mundo civilizado, Negan comanda, a punhos de ferro, sua comunidade. Seus seguidores, quando questionados sobre suas identidades (quem é você?), respondem de forma uníssona: “Eu sou Negan”. Um culto ao líder que não poderia ser mais totalitário. Lula mirou em Sócrates, mas, como amigo de José Sócrates, multiplicou-se em Negan.

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