ANO: 24 | Nº: 6163

Fernando Risch

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Escritor
20/04/2018 Fernando Risch (Opinião)

O cotidiano é uma máquina de moer sonhos

Talvez eu seja injusto e generalista, mas creio que há poucas pessoas no mundo que desfrutem do prazer de viver bem fazendo exatamente aquilo que sonharam. Na necessidade e na desigualdade, o cotidiano nos consome e nos traga para um lugar paralelo onde é proibido sonhar; de lá, desta realidade que somos obrigados a viver, nos lamentamos por ter desistido ou ainda alimentamos a centelha de uma utopia mundana.

Há quem não saiba o que quer da vida e há quem saiba o que quer errado. Eu, por exemplo, sempre quis ser músico. Pratiquei instrumentos de corda durante anos, num esforço hercúleo que não me tirava do lugar. Nunca consegui executar uma música, nunca consegui entrar no tempo certo de uma canção, nunca tive calma e destreza para aquilo. Hoje, sabendo que não nasci para tal, quando fecho os olhos, ainda me imagino em um palco, me apresentando ao vivo com uma banda, o que sei que jamais ocorrerá.

Depois de algum tempo, descobri uma coisa que me dava prazer e que eu pensava ser bom. Sem querer, despretensiosamente, resolvi começar a escrever e escrever se tornou meu novo objetivo de vida, desta vez real e palpável. Lancei três livros em três anos e ainda existem muitos em execução na fila e muitos ainda que sequer tiveram a primeira letra posta em um arquivo de Word.

Era visível que eu não sabia o que, de fato, eu poderia ser. Eu tinha um sonho errado, uma ideia de vida que não era compatível com minha aptidão. Então eu me encontrei e refiz meu sonho, ainda ousado, mas alcançável. Conheço pessoas que querem ser escritores porque acham legal ser escritor, e perguntam por onde devem começar. Não é desta forma que funciona, assim como a música não funcionou pra mim e jamais funcionará. Se não se sabe sequer como é a ação sonhada em si, é muito provável que seja um falso sonho. Parece presunção da minha parte, mas acredite, não é; é apenas a realidade. Alguns nascem pra uma coisa, outros nascem pra outra. É assim que as coisas são.

E todo sonho é difícil de realizar, se a pessoa não vem banhada em privilégios. Citando Cazuza, o tempo não para. A vida não para. E quanto mais complexo é um sonho e mais dura é a realidade de quem sonha, mais difícil é de alcançá-lo. Pessoas que trabalham dois, três turnos, pensando no futuro; pessoas que dormem muito menos do que deveriam para alimentar o presente. E a vontade de desistir bate a cada cinco minutos na porta, perguntando se você já foi vencido por essa realidade paralela em que a necessidade do mundo te colocou. O cotidiano é uma máquina de moer sonhos.

Tenho um grande amigo de infância que, quando estávamos no Ensino Fundamental, numa época em que tínhamos dificuldade de interpretar textos banais e só pensávamos em assistir desenhos animados, ele lia livros de Direito Penal por puro prazer e tentava, em vão, explicá-lo para nós, seus colegas. Hoje, é um grande advogado. Um homem de sorte, que soube desde pequeno o que lhe dava prazer e nunca se desviou da rota de um sonho, tendo uma profissão rentável, sem que qualquer necessidade lhe tirasse do rumo certo.

Há quem queira ser artista (ou apenas famoso), há quem queira ser médico ou advogado, há quem queira viver longe da luz, no anonimato, há quem queira ser modelo, ator, atriz, e há quem queira seguir a vida desfrutando de profissões mais simples, sem pompa. Todos devemos sonhar e dar cada passo das nossas vidas na direção de realizá-lo - mesmo sabendo que a necessidade do dia a dia nos tragará alguns passos pra trás - basta sabermos, com certeza, não o que queremos, mas aquilo que nos faz dormir tranquilos e acordar dispostos, trazendo prazer e prestígio, seja lá o que for.

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