ANO: 25 | Nº: 6382

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
26/04/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Loucadêmicos

Levando-se em conta a facilidade da propagação de ideias, o evidente declínio cultural e a perspectiva de René Girard, na qual o desejo mimético “nasce da contemplação de uma outra pessoa que está desejando algo e, assim, indica que o objeto que ela deseja é desejável", a nossa época oferta um grande laboratório. Imitar outras práticas sociais, para o bem ou para o mal, é algo flagrantemente humano. E, diante de uma sociedade instantânea como um clique, não é nada aleatória a ocorrência dos mesmos fenômenos em partes distintas do globo.

Creio que uma das chaves de interpretação do emaranhado caótico contemporâneo esteja no entendimento sobre o uso da liberdade de expressão no ambiente universitário. Afinal, o que o local que foi construído para a reflexão tem a dizer (e mostrar para a sociedade) sobre isso?

De acordo com o The Independent (13/02/2017), cerca de nove a cada dez universidades britânicas têm algum tipo de restrição quanto à liberdade de expressão. No mesmo mês, Milo Yiannopoulos, jornalista gay, católico e conservador, conhecido por suas ácidas críticas ao feminismo, ao politicamente correto e ao Islã, foi impedido de palestrar em Berkeley. O motivo? Discordar das pautas progressistas. A palestra foi cancelada por algo bem conhecido pelos brasileiros: cerca de 150 mascarados (antifascistas que se vestem e se comportam como fascistas) começaram a depredar tudo que viam pela frente. A conservadora Ann Coulter, por razões de segurança, em abril de 2017, na mesma Berkeley, também teve sua palestra cancelada.

Outro caso curioso é o do professor de sociologia da University of California Merced, Fernando Chirino. Quando ele soube que o conservador Ben Shapiro iria palestrar em sua universidade, disse: “Eu não vou debater com ele, porque estar na mesma sala que esse idiota é colocar esse ideólogo fascista ‘nonsense’ em patamar de igualdade comigo”, acrescentando que Shapiro é um defensor da supremacia branca (Shapiro combate firmemente isso e qualquer espécie de totalitarismo) e que era muito melhor organizar uma luta de MMA entre ambos. E foi além: sugeriu que adoraria tirar/arrancar o ombro do lugar (de Shapiro). Após a divulgação dos áudios, alguns alunos criaram uma página no Twitter, intitulada “Justice4Fernando” (Justiça para Fernando): “Nós não vamos permitir que a nossa liberdade acadêmica seja silenciada ou atacada”, clamam os solidários a Chirino. Ainda chegaram ao cúmulo de pedir que a universidade oferte uma promoção em sua carreira. O que dizer disso?

Em todos os casos, quando faltam argumentos, o apelo é para a violência virtuosa: aos inimigos teóricos, resta-lhes uma espécie de agressão pedagógica. Se não se calam, é porque não apanharam de forma suficiente. Uma prática completamente antagônica à ideia de ambiente universitário. Algo absolutamente desvirtuado dos propósitos do ensino e do melhor uso da racionalidade.

Fato é que uma época sadia do ponto de vista mental não permitiria situações como as descritas. Como disse Fiódor Dostoiévski, a “tirania é um hábito; ela pode se desenvolver, e se desenvolve, finalmente, em uma doença [...] o exemplo de tal despotismo, tem uma influência pervertida sobre toda a sociedade [...] Uma sociedade na qual olha indiferentemente tal fenômeno, já está contaminada em seus alicerces”. Nossos tempos?

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