ANO: 25 | Nº: 6381

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
03/05/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Loucadêmicos II

Na fachada de um prédio público em Bagé, em uma das principais ruas da cidade, há a seguinte pichação: “A burguesia fede”. Provavelmente, seu autor tenha se inspirado em trecho da música “Burguesia”, de Cazuza. Na canção, há uma crítica a dois traços atribuídos aos burgueses: futilidade e exploração dos mais pobres. Assim, Cazuza propõe dinamitar com a burguesia, colocando-os em uma fazenda de trabalhos forçados. Mas ele, um sujeito oriundo dessa classe, faz uma ressalva: “Eu sou burguês, mas eu sou artista; Estou do lado do povo”. Tática conhecida: todos os burgueses são iguais, mas alguns iluminados são mais iguais que outros. Um exemplo?

No mês passado, a professora do curso de História da Ufpel, Rejane Jardim, feminista e defensora das pautas de esquerda, foi alvo de polêmica por conta de posts publicados em seu Facebook. Conforme relatado no GaúchaZH, a professora escreveu em seu perfil: “Recomendo em fascistas só avoadora na cara, nos peitos, nas bolas, na alma... fascistas têm de morrer um a um... e me inscrevo para essa missão. Tô de saco cheio de pacifismo e bom comportamento... morte aos fascistas...”, dentre outras frases no mesmo sentido. Na atualidade, é notório que o termo fascista ficou descolado de seu significado. Para boa parte do pensamento de esquerda, fascista é todo indivíduo que discorda de suas pautas. Afinal, uma maneira de deslegitimar o opositor é imputando-lhe exatamente o que ele mais repudia.

Sobre os posts, em ato público de apoio à docente, Rejane declarou que havia realizado ironias. O Sindicato dos Servidores da Ufpel declarou que o referido ato, denominado “Rejane Jardim (PRESENTE)”, teve o intuito de “defender as ideias” da professora. A Associação dos Docentes da Ufpel (Adufpel), em nota, hipotecou apoio à docente, ao afirmar que não tolera “nenhuma forma de perseguição política aos professores e professoras que lutam por uma sociedade mais justa”. Fabiane Tejada, presidente da Adufpel, disse que Rejane tem “um histórico de contribuições para a livre expressão [...]. Não permitiremos que seja moralmente agredida”. Mais curiosa foi a postura da professora Janaina Cardoso Brum: “O texto da Rejane trabalha com subentendidos. Quem a conhece sabe que é uma pacifista, mas, veja bem, ela [...] vem sofrendo ataques [...], seja por sua condição de militante e estudiosa do feminismo, seja por suas posições marcadamente de esquerda. É natural que exponha, em sua página pessoal, sua indignação”. Tudo parece ter brotado de uma peça ficcional. Criam-se desculpas e narrativas para reescrever a história ao bel-prazer da causa. E se um professor que não concorda com as pautas de Rejane publicasse algo crítico contra o que ela fez, haveria a mesma defesa de sua liberdade?

Antes de apagar suas postagens, Rejane, no melhor estilo marxista, declarava: “Meu ódio é revolucionário e é ódio de classe, sim. Odeio burguês. E você, cuide-se para saber de que lado está”. Bem, de acordo com o Portal da Transparência do governo federal, Rejane aufere R$ 15.806,58 por mês. Bastante distante da renda média mensal do trabalhador brasileiro (R$ 2.154,00), mas enquadrada no que sua ideologia classifica como burguesia. Como diria o cantor brega Falcão, na contramão de tudo isso, “eu sei que a burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume”.

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