ANO: 25 | Nº: 6208

Fernando Risch

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Escritor
04/05/2018 Fernando Risch (Opinião)

O problema do Brasil é de empatia

Nesta semana, com o desabamento de um prédio no centro de São Paulo, o debate estúpido e dicotômico da política brasileira teve mais um fato para tirar proveito ideológico e para começar um embate burro e sem sentido. De um lado, os críticos da gestão João Dória, que lhe acusaram de omissão, quando o ex-(e muito breve) prefeito de São Paulo admitiu saber da situação do prédio e ter tentado que os moradores saíssem. Do outro lado, críticos da legalidade da ocupação, da taxa paga pelos moradores, de questões burocráticas e de movimentos sociais.
 
Na tragédia, pessoas morreram, muitas estão desaparecidas e todos, sem exceção, perderam tudo. Podemos aqui fazer uma avaliação sobre o prédio, uma avaliação sobre os coordenadores do MLSM, uma avaliação sobre a Prefeitura de São Paulo e uma avaliação, inclusive, pela situação do mercado imobiliário brasileiro, ultrainflacionado. Mas não vamos. Vamos tentar falar de seres humanos.
 
Você pode não gostar dos movimentos sociais e ocupações e deve fazer as críticas pertinentes sobre todos eles, mas apenas apontar o dedo e cruzar os braços não é suficiente. As ocupações de terrenos e prédios públicos abandonados não são a solução, em longo prazo, para dar àqueles que não têm um teto para viver um lugar para morar. Mas, infelizmente, a indignidade dessa realidade é o ponto zero da situação.
 
Quem se submete a uma ocupação, não faz porque gosta ou acha bonito. Faz porque é a única maneira possível de ter um lugar para viver. É triste e é indigno. Mas são pessoas como qualquer outra, como eu e você, que trabalham e sonham, e que precisam se submeter a todo e qualquer sacrifício para não passarem seus dias nas ruas, a céu aberto, expostas. Você tem todo o direito de ser contra o que quiser, de achar que os movimentos sociais são máfias financiadas por interesses ou qualquer coisa do gênero, mas não pode se virar contra a dignidade das pessoas e contra seu direito constitucional de ter uma moradia.
 
Vidas se perderam, sonhos morreram e só o que conseguimos ver foram críticas aos próprios mortos, aos desabrigados, a pessoas que não tinham quase nada e que agora não têm nada - e alguns, que agora sequer têm vida. Com uma tragédia grotesca e cinematográfica, o discurso subsequente era de proveito político, de buscar lados ideológicos extremados em algo primordialmente humano; mas o que se viu foi a vida e a dignidade das pessoas sendo colocadas abaixo de interesses, discursos vazios, acusações e, inclusive, da legalidade.  
 
Utilizando o duplipensar de Orwell, é possível que concebamos duas questões contraditórias e a assimilemos como verdades. Podemos ter uma opinião sobre quem tem culpa, mas essa opinião deve, sempre, ficar abaixo das vidas perdidas e daqueles que sobreviveram e precisam de ajuda; que dedos que apontam as razões da tragédia, agora usem essas mesmas razões para evitar novas e trazer dignidade a quem precisa.
 
O problema do Brasil não são apenas os políticos, a corrupção, ou qualquer outro bode expiatório que queiramos utilizar para delegar nossas próprias responsabilidades. O problema do Brasil é da população; é de empatia, de sentir, na pior das hipóteses, ao olhar a trágica miséria do próximo, um pingo de tristeza por não poder fazer nada e, ainda assim, defender quem necessita como pode. O que se espera dessa tragédia é que aqueles que nunca se importaram com os milhões de famílias desabrigadas no país, agora possam sentar à mesa do debate e trazer soluções dignas para esse problema.
 
 
 

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