ANO: 24 | Nº: 6061

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
05/05/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Os bosques de Punta Del Este

É mais fácil aos bajeenses chegar às praias uruguaias que viajar para as areias próximas da capital ou até dar preferência às que bordejam as águas catarinenses. Muitas variáveis, contudo, influem na escolha.

Quando se decide pelas primeiras e se vai a Punta del Este não se encontrará, é certo, a tepidez caribenha ou a mornidão que habita o mar nordestino. Mas há encantos naquela cidade cosmopolita que tornam até dispensáveis os paradouros que miram o Rio de la Plata. Entre eles os bosques.

Punta é a península sofisticada de Maldonado, uma das mais antigas localidades da América, e já conhecida desde 1594 quando expedida Ordem Real por Felipe II sugerindo ao Governador do Paraguai Fernando de Zárate que povoasse a ilha Maldonado, hoje Gorriti, denominação que se estendeu à área adjacente. O toponímico era usado para identificar tais acidentes geográficos sendo proveniente de Francisco Maldonado, tripulante da expedição Gaboto, e que não retornara à Espanha em 1527. O rei deseja estabelecer uma povoação que auxiliasse as embarcações que se perdiam nas águas do território colonial e para recolher os náufragos para não caíssem em nas mãos dos indígenas. Quando Artigas, em 1816, aprovou a divisão dos primeiros seis Departamentos da Província Oriental, manteve o nome que já era popular. A cidade de Maldonado foi fundada em 1755 quando José Joaquim de Viana, governador de Montevidéu, instalou os primeiros 13 habitantes nas imediações da Laguna del Diario, população composta então por soldados que ali levantaram uma capela e construíram modestos ranchos. O dirigente estava preocupado com o possível avanço português.

Em 1892, um jornal local advertiu sobre a rapidez alarmante como progredia o avanço das areias que atingiam os terrenos que circundavam a cidade, engolindo terras férteis e impedindo qualquer plantio ante a espessa capa que as cobria, fato que também as desvalorizava; e de que se salvavam apenas espaços defendidos por algumas florestas.

Em 1876 e 1877, os italianos José Allegrini e José Rosso, donos da Chácara Los Toscanos, hoje bairro La Loma, iniciaram o cultivo de eucaliptos e álamos. Em 1880, o inglês Henry Burnett, todavia, providenciava o plantio de eucaliptos e depois, em substituição, de pinheiros adequados à zona marítima, e de modo sistemático, depois em Punta Ballena o senhor Antonio Lussich.

Outro grande florestador foi Ambrosio Gómez, proprietário de gleba chamada Miramar, grandemente louvado pela especial extensão de diversidade de eucaliptos e pinheiros, transformando "dunas em bosques", personagem que também criou um molhe na praia Las Delícias para retirada de cal por via marítima. As plantações de Gómez situavam-se no atual Parque Cantegril.

Román Bergalli foi outro que se aplicou em tais medidas em sua granja, mas Burnett o fez em tal quantidade ao sul de Maldonado e na orla da baia que originou o singular Parque Burnett que se estende na estrada que vai a Punta del Este, panorama agora denominado Los Pinares, e cuja perseverança, em 15 anos de trabalho, venceu as areias movediças e erigiu um bosque de frondosos pinheiros e eucaliptos abaixo de que hoje transitam estradas e ruas. A casa de Burnett é ora o Museu de Arte Americano. A área plantada alcançava 192 hectares.

Há, ainda, o Bosque Municipal, com 104 hectares e situado no Rincão de São Rafael, criado por Estanislao Gonzáles, presidente da Junta Administrativa de Maldonado, em 1900, destinando-se uma parte para o plantio de álamos de numerosas variedades doa das por dita autoridade e por Juan Dutra. Há alguns anos a gestão municipal providenciou acréscimos e inovações, especialmente a introdução de álamo branco, acácia, casuarina e outras variedades. Entre outros plantadores estava Juan Gorlero.

Foi um longo trabalho que se consolidou nos bosques que impressionam os visitantes e que se estendem por Maldonado e Punta del Este. Uma obra que honra os visionários que os criaram.


 

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