ANO: 24 | Nº: 5940

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
10/05/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Um aviso

Mesmo que o mal seja a ausência de bem, como precisamente afirmou Santo Agostinho, é interessante ver como o bem magnetiza o mal. No caso da liberdade, pode-se dizer que uma de suas características essenciais é seu poder de atrair a proibição. Algo muito semelhante ao que acompanha a glória alheia: não faltarão boas doses de inveja que visem à destruição de cada sucesso obtido. Assim, não havendo possibilidade de evitar essas atrações fatais, o que resta é a eterna vigilância contra o mal.

No final do mês passado, uma gravação de uma conversa entre o presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS (Sindjors), Milton Simas Júnior, e o repórter Marc Sousa, vinculado a RIC Paraná, expôs, de forma didática, como a liberdade representa uma virtude. No curto diálogo, disponível no YouTube, Milton, vestindo uma camiseta do MST, fala para o jornalista Marc Sousa que ele deve se afastar do acampamento em que se encontram os correligionários do ex-presidente Lula: “Eu tô te avisando, que é para preservar a tua integridade”, decreta Simas. Marc, com um misto de ingenuidade e perspicácia, pergunta se não é possível gravar naquele local. O sindicalista responde: “Não seria recomendável, pra quem fala mal do movimento social, ou tu fica lá do lado do carro da polícia, tá? Tá? Eu tô te avisando pro teu bem”. Marc contrapõe alegando que eles não sabem ainda nem o que ele vai falar, ao passo que Simas diz que, pelo fato da imprensa estar toda unida em prol do “Golpe de 2016”, a gravação da reportagem não deveria ser feita nas proximidades do acampamento.

Após a repercussão do vídeo, o Sindjors emitiu uma nota declarando que a ação de Simas foi como um conselho visando à proteção do jornalista contra possíveis agressões físicas, caso “dissesse alguma coisa que contrariasse os princípios defendidos no acampamento”. Na nota, também foi afirmado que o Sindjors luta pela democracia, liberdade de expressão e de imprensa, o que, pela cena exibida, mostra como esses conceitos são plásticos para determinados grupos. Simas gravou um vídeo sobre o ocorrido, alegando que, em nenhum momento, “cerceou, ou intimidou, ou tentou impedir o trabalho” de Marc. E a espetacular CUT-RS declarou apoio (alguma dúvida?) ao presidente Simas, asseverando que luta por uma “comunicação com ética, pluralidade, respeito e diversidade de opiniões”. Entendo. Para alguns, a liberdade é um conceito sujeito a uma coloração ideológica.

Ora, ordens são ordens. E por mais que conselhos, dicas e sugestões não sejam ordens, também podem funcionar como se fossem determinações. Ainda mais se alguém tem um poder sobre as massas, se está entre maiorias agressivas e se profere frases que indiquem possíveis consequências negativas. De forma velada e com inúmeros subterfúgios linguísticos que permitam a criação de escusas posteriores, é possível preencher o vazio racional de uma ordem arbitrária com uma recomendação proibitiva que se justifica em nome da própria liberdade.

O importante pensador inglês G. K. Chesterton afirmou que “os homens não discordam muito nas coisas que eles consideram más; eles discordam, enormemente, sobre que males eles considerarão desculpáveis”. Nada mais acertado, afinal, para muitos, em nome da causa e de um mundo melhor, sempre existirão desculpas que justifiquem “pequenos” males.

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