ANO: 24 | Nº: 6013

Fernando Risch

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Escritor
11/05/2018 Fernando Risch (Opinião)

Coerência é a mãe da burrice

Para quem se expressa constantemente, escreve textos e expõe sua opinião em público, com o tempo começa a perceber que a contradição se torna algo corriqueiro. Essa contradição - ou incoerência - surge, em geral, quando se compara visões da mesma pessoa em prazos distantes. Anos, por exemplo.
 
Além desta coluna que você lê, neste exato momento, eu também escrevo sobre futebol. Mas não apenas futebol, eu escrevo sobre meu time, o Grêmio. Isso ocorre desde 2012, quando comecei como blogueiro reserva do Blog Torcedor do Grêmio, da Globo. Desde 2014, integro a equipe de colunistas do projeto ESPN FC, da ESPN Brasil, ainda representando o Tricolor.
 
Agora, imagine você. São anos escrevendo semanalmente, às vezes, com mais de um texto por dia, sobre um tema que, além de ter influência da razão, mexe muito mais com a emoção do leitor (e a minha). Um jogador ruim pode ser escorraçado em um determinado momento; depois, este mesmo jogador, ao se consagrar em alguma partida importante, não deixando de ser ruim, tornar-se uma lenda sob a ótica passional.
 
Nesta semana, com a espetacular fase do Grêmio, alguns torcedores me cobraram uma opinião que dei sobre o técnico Renato em 2013. Com cinco anos de distância, me cobravam coerência. De forma irônica, talvez propositalmente maldosa, me perguntavam se eu mantinha aquela posição. A verdade é que, de lá para cá, principalmente no ano passado, escrevi muito sobre o atual treinador gremista, na maioria das vezes o enaltecendo.
 
Mas, mais que isso, eu mantenho minhas críticas, reclamações e histerias de cinco anos atrás, porque todas essas "transloucuradas" que escrevi tinham um contexto, uma história, uma razão e uma emoção. O que penso, agora, não anula o que pensava antes. É a avaliação, em momentos diferentes, de uma mesma pessoa.
 
Essa contradição de sentimentos e visões também se alastram quando falo de política. Posso considerar autoritária a prisão de Lula , duvidosa e com um processo de provas frágeis e, ainda assim, acreditar que ele não seja inocente. Uma coisa não anula a outra - seria falacioso pensar que sim, quando a crítica está no processo, não na culpabilidade, que são coisas distintas. Assim como posso acreditar que ele tenha errado muito na sua trajetória e, ainda assim, tenha sido um grande presidente. Uso esse exemplo por se tratar de um assunto que divide as pessoas de forma brutal, sem meio termo. Minha incoerência é o meio termo. Se eu não me der ao luxo de pensar, de aceitar essas duas versões que concebo, estarei entregue a uma briga burra, sem nenhuma proposição.
 
Coerência de opinião parece algo positivo, correto, mas não é. Ser capaz de se alimentar de informações e vivências e mudar de opinião não é ruim, muito pelo contrário, é sinal de evolução, de questionamento, de ruptura de um status intelectual, enrijecido por senso comum e preguiça. Hoje, já não sou incoerente em longo prazo, consigo banhar-me em incoerência de cinco em cinco minutos, se for necessário, desde que imbuído de argumentos sólidos.
 
Como é bom se incomodar em pensamentos até chegar ao ponto de não saber mais no que acreditar e acabar acreditando em tudo, ou não acreditando em nada. Coerência serve para caráter, não opinião. Coerência é a mãe da burrice.

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