ANO: 24 | Nº: 5940

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
15/05/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Compreender o fim

Nada mais difícil para os seres humanos que compreender o fim. Enxergar sentido e propósito na conclusão de um ciclo, de uma vida, de uma época, de uma parceria, de uma relação, seja o que for, a percepção do final e sua aceitação não esta acessível a nós. Não sem dor, não sem lutar, não sem negar para si mesmo muitas vezes.

Aceitar o fim de algo em específico é aceitar a finitude de tudo. Admitir que nada é eterno, que o tempo está passando e fatalmente o que temos agora, ou pensamos ter, um dia não estará mais aqui. Pensar nisso e refletir um pouco sobre a sensação de vazio que este pensamento nos trás não é pura e vazia melancolia. Ao contrário, depois da surpresa e aparente distanciamento ou choque, vem o sentido do agora, a valorização do momento presente e o significado de cada pequena coisa de modo particular para cada um de nós. Lembrar de nossa finitude é valorizar tudo de modo cruel, intenso, verdadeiro e realista, pois põe todas as peculiaridades da vida pelas quais sofremos em uma nova perspectiva de tal modo que a maioria delas torna-se uma grande bobagem.

Dessa forma, encarar o fim, percebê-lo, refletir sobre ele pode salvar uma existência, preencho-a de significados verdadeiros. Diferentemente do que se possa imaginar, passar uma vida inteira fingindo que somos eternos ou que as relações e objetos também o são, não só nos tira a possibilidade de uma relação verdadeira com o mundo, interno e externo, como nos desprepara demasiadamente para o inevitável. A relação de consumo exagerada também contribui para o engano a este respeito, sugerindo que tudo pode ser comprado, descartado e substituído. Ninguém é eterno. Ninguém é perfeito. Ninguém é insubstituível. Vale a pena, de vez em quando, lembrar disso e investir nosso tempo e energia no fato de que enquanto estamos vivos, sempre que algo acaba, algo novo começa. Não posso encerrar este pensamento sem lembrar de Renato Russo, que com toda a razão afirmou que: É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar para pensar, na verdade não há.

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