ANO: 25 | Nº: 6310

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
19/05/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Três episódios

Aos vagidos de 1964 a recém-eleita bancada do “velho” PTB decide indicar para a liderança o então jovem professor de Biologia, escolha repetida pelo prefeito Ferraz. O primeiro discurso, curiosamente, aconteceu em 1º de abril quando as tropas militares tomavam o país para destituir o governo constitucional de Jango Goulart.

Com as cassações de mandatos e acefalia política passam a desaguar no escritório de advocacia do líder da bancada petebista as atribuições que competiam às direções partidárias, ou seja, o lugar torna-se peregrinação de companheiros em desamparo ou exílio.

A lembrança acode quando, antes de findar o semestre daquele ano, em fim de tarde ali se anuncia Miguel Assunção dos Santos, recomendado pelo diretório da capital, militante que sofria perseguição e ameaças à vida. Logo tratei de auxiliá-lo na busca de moradia e incorporá-lo aos escassos encontros, aonde demonstrou reserva e discrição; e até sisudo quando alguém contava piada chula ou insinuação de cunho imoderado.

Com surpresa, pouco depois se torna vizinho quando instala o templo de sua Cruzada Universal no prédio do antigo cinema Apolo, na rua Marechal Floriano ao lado do então Centro de Saúde, despertando as manhãs dos lindeiros com cânticos, palmas e hosanas. Sem deixar sua fidelidade ideológica Assunção foi sempre leal parceiro. Depois, quando casei, eu brincava dizendo que, ao descer da Capela S. José em direção à Igreja do Crucificado onde repetiria a cerimônia com o reverendo Guedes, ia tomar uma bênção também do “Irmão Miguel” que ficava no trajeto.

Por meses nas quartas-feiras ia ao bairro S. Judas, onde estava a Cruzada, para dar assistência jurídica aos seus fiéis, o que fazia com o ex-aluno Roque Lane Urrutia, hoje advogado em outras plagas e filho do combativo Laudares. Assim, quando já se festejam os 54 anos destes fatos, reconheço que Bagé deve a Miguel Assunção dos Santos por sua inegável ação comunitária.

Na época outro acontecimento integra essas lembranças, quando ingressa na sala um moço espevitado, de óculos, cabeludo, como moda. Encaminhado pela direção estadual por ter sido expulso do Colégio Júlio de Castilhos onde desenvolvia “atividades subversivas”, segundo jargão. Logo narra suas peripécias e se propõe a “editar um jornal” denunciando o sistema vigente, além de se oferecer para um proselitismo contestador. Tento acalmá-lo em suas ânsias, pois o momento não era adequado frente à profusão de inquéritos, processos e prisões. Disse estar matriculado no Colégio Estadual, onde o reencontraria, ali ficando pouco espaço, pois retorna à capital e cumpriria caminhada exitosa: era Antônio Brito Filho, com quem recordei tais eventos quando convidado a visita-lo no Palácio Piratini, ocasião em que entreguei sua “ficha escolar”, providenciada pelo Estadual. O prefeito Carlos Azambuja o havia presenteado com artigos e textos de seu pai Antônio Brito, insertos no Correio do Sul, combativo vereador em nossa cidade.

Lembram-se de Néia?  Em 1973 o Guarany contrata o possante artilheiro do Avaí, impressionado pela qualidade de goleador. Néia, ou Anselmo Pizzolo, não desmerece a fama, tornando-se logo um destaque nos campeonatos gaúchos que disputa. Também se incorpora à cidade como aluno de Educação Física, FunBa, onde se graduaria. Em 1976 o Grêmio estava abalado com o desempenho do Internacional e as cotoveladas de Figueiroa. Investiga centroavante capaz de “enfrentar” as armas do chileno. Volta-se para Néia. Era o presidente do alvirrubro e vou a Porto Alegre. Visito um afável gestor gremista em apartamento próximo do Pronto Socorro. Negocio o atleta. Néia entra em campo num Grenal do Olímpico. No primeiro embate com Figueiroacolide com zagueiro colorado. Com violência. É expulso no primeiro lance! Esqueci: o gentil presidente tricolor era Fábio Koff.

 

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