ANO: 25 | Nº: 6208

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
22/05/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Príncipes e princesas

Os contos de fadas, há muito, estão presentes na vida das crianças, povoando o imaginário e transmitindo, de geração em geração, arquétipos e valores humanos. A cultura dos clássicos já gerou distorções e fixações de papéis. Como exemplo, a condição feminina, por muito tempo associada à submissão. As mulheres que se destacavam positivamente nas histórias o faziam pela subserviência, aceitação e beleza. Já as que surgiam para exemplificar o mal eram as proativas, porém, feias.

Além da questão de gênero, muitas vezes, as histórias manifestam o determinismo social, onde cada um tinha seu papel e lugar pré-estabelecido, raramente um personagem ascendia socialmente pelo esforço, trabalho ou estudo. Quase tudo se aceitava, inclusive os soberanos cumprindo uma função divina, de modo que os “bem-nascidos” assim continuavam servidos pelos oprimidos que assim também morreriam. O mais grave é que havia virtudes nessa ordem. E a mensagem foi sendo repassada.

Pois bem, a organização de castas e classes já foi desafiada. A figura feminina já exige respeito e atitude protagonista. Embora haja muito a melhorar, qualquer criança se pergunta ao ouvir o conto da Cinderela (ninguém mais a chama de Gata Borralheira) por que ela aguentaria todas essas humilhações? Por que não vai embora e dá um basta na situação? Sinais claros da mudança de paradigmas.

Entretanto, hoje vivemos outras etapas da repercussão dos contos infantis. É o tempo de príncipes e princesas. Muitas crianças são incentivadas a se sentirem assim. Alguns têm festas com este motivo, outros realmente vivem a fantasia alimentada por pais extasiados, que talvez inconscientemente sintam-se engrandecidos enaltecendo seus rebentos. Ou com preguiça de ler, contar e depois educar, a partir da mensagem emitida pela história, prefiram comprar a fantasia e pronto. Sendo assim, não seria isso um retrocesso?

Acreditando que são pequenos representantes da realeza que outras ideias estão sendo introduzidas em suas cabecinhas?

Reinos não são feitos apenas de reis, rainhas e princesas. A pirâmide se sustenta de outra forma, a maioria inferiorizada mantém a minoria real. De que forma a criança compreende isso? Quem os serve para que possam ser altezas? Quem exerce o papel dos plebeus em suas vidas, ou seja, quem eles irão tratar como inferiores, colegas, professores, estranhos?

Até que ponto incentivar a glamourização sem necessitarem de esforço pessoal nenhum para isso, não fomentará uma geração de egoístas, vaidosos e cruéis? Nem todo mundo está disposto a dar continuidade à fantasia que alguns pais se submetem. Como reagirá esta geração enganada quando descobrir que são simples mortais, que a vida lhes exigirá tanto quanto dos plebeus e que não terão nenhuma reverência, paciência e paparicos como têm em casa?

Realmente creio que os contos de fadas são poderosas fontes de aprendizado exatamente porque mostram variados tipos humanos, situações, atitudes, status e escolhas. Escolher somente um papel e tentar vivenciá-lo sem a licença da poesia, concretizado a fórceps, é o mesmo que ficar com a arca e jogar o tesouro fora.

 

OLHO

Qualquer criança se pergunta ao ouvir o conto da Cinderela:

por que ela aguenta todas essas humilhações?

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...