ANO: 25 | Nº: 6356

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
24/05/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Alimentados pela miséria

O conhecimento do potencial destrutivo de uma época degradante é particularmente doloroso. Para a alma, gera um efeito semelhante à retirada abrupta da inocência de uma criança: perde-se a leveza, momentaneamente ou para sempre. E, como uma marcação de gado a ferro quente, resta um símbolo que pode facilmente ser a representação do pessimismo.

Em um dos bairros carentes de Bagé, está localizada uma escola municipal em que a estrutura física beira às raias de uma distopia. As tintas das paredes das salas de aulas, as cadeiras, o piso e o quadro negro parecem ter sofrido os danos de uma guerra. O amplo pátio, que se esparrama por uma das entradas e ao redor das salas de aula, é dominado por um elevado volume de pasto que serve de alimento para um cavalo magro e repleto de visíveis problemas de saúde. Comentar sobre a pintura externa da escola seria perpetrar um massacre. O muro é um aparato ficcional: ou possui trechos baixos em demasia, ou está destruído a cada 5 metros, o que faz com que a escola tenha muitas “portas” de entrada. No que restou da quadra poliesportiva, é possível praticar de tudo, menos esportes; traves enferrujadas sem redes e tabelas de basquete sem aros atentam contra qualquer atividade. Mas, é nesse último espaço, que se encontram inúmeras “cerejas” para esse “bolo”: pichações. Com isso, não faltam símbolos que somente podem ser compreendidos por membros de grupos criminosos. Também marcam as paredes alguns termos resguardados de uma gramática muito afastada da linguagem culta (“é nóis”) e uma defesa generalizada da maconha. E uma das frases é chocante: “Pika nelas e bala neles”. Se crianças e adolescentes conseguem ler isso todos os dias, não há dúvidas quanto ao processo de dessacralização do ambiente escolar.

Tal descrição não passa de uma representação microscópica daquilo que ocorre em boa parte das escolas públicas do Brasil, com a conivência do poder público. Um contexto herdeiro de políticas pedagógicas que vislumbram na transgressão uma forma de expressão diante da opressão da sociedade, e de políticos populistas que veem na miséria humana uma possibilidade para boas fotografias em redes sociais.

Mas, para a revista Nova Escola, a pichação não é tão ruim. Na edição 300, há uma reportagem com o seguinte título: “Pixação é vandalismo?”. Um questionamento capcioso, pois deixa dúvidas sobre um ato que é flagrantemente criminoso e avesso a qualquer ideia de belo. Ainda, na chamada da matéria, propõe-se que “essa forma gráfica de contestação” (um eufemismo bizarro) deve ser discutida sem qualquer preconceito. Ou seja, de acordo com a revista, dizer que pichações não passam de um culto à feiura significa discriminação. É surreal a inversão de valores.

Por óbvio que a solução desses problemas significa cortar a seiva de sentimentalistas pedagógicos e diminuir os resultados eleitorais daqueles que se nutrem da proliferação da miséria moral. Para burocratas, a miserabilidade virou um grande experimento social que garante espaços para discursos e votos. Na célebre obra “Os miseráveis”, Victor Hugo declarou que “a miséria nas classes baixas é sempre maior que o espírito de fraternidade das classes altas”. Talvez o escritor francês tenha menosprezado demasiadamente o poder de cooperação entre aqueles que vampirizam a dignidade de indefesos.

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