ANO: 25 | Nº: 6381

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
31/05/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Muito mais do que spray

No momento em que a irracionalidade veio ao mundo, com toda certeza, alguns indivíduos estavam na dianteira como efusivos porta-estandartes. Uma importante criação humana, a atividade artística (ou o que restou dela) é um valioso instrumento para detectar quem são os herdeiros daquelas bandeiras. Se George Bernard Shaw estava certo ao dizer que “você usa um espelho para ver o seu rosto; você usa obras de arte para ver a sua alma”, não há nada mais instigante do que se entediar daquilo que alguns chamam de expressões artísticas contemporâneas.

Em “Direito visual à cidade: a estética da pixação e o caso de São Paulo”, artigo acadêmico da “filósofa” Márcia Tiburi, há uma flagrante tentativa de legitimação da pichação. Classificando o “pixo” como “a mais potente forma de arte do nosso tempo”, Tiburi busca estabelecer um glamour para essa rude transgressão, que tem como único objetivo fazer com que a feiura ocupe o espaço visual. Partindo de algumas bases marxistas, no que diz respeito à ruptura que essa teoria faz com o capitalismo, a “filósofa” tece loas, indicando que a pichação é uma atividade política. Para ela, um muro construído por algum proprietário é uma representação do “autoritarismo cultural cotidiano e espetacular que alimenta a indústria cultural da fachada”. Em outras palavras: desconstruir esse padrão urbano opressor é papel da pichação. Tiburi é mais ousada, ao afirmar que os pichadores são artistas, críticos sociais, promotores de justiça e, acima de tudo, “filósofos selvagens”. A violência estética legítima que praticam está amplamente justificada, porque age contra as perversas determinações capitalistas quanto à ocupação do espaço urbano. Para ela, “o saber da pixação inclui a inverdade do belo”, o que faz com que as ideias de beleza e verdade sejam vistas como opressivas para a “arte” da pichação. Ainda, de acordo com a “filósofa”, pichar é exercício da livre vontade de expressão de indivíduos da periferia como forma de democratizar a estética urbana.

Conforme destacou o site GaúchaZH, em 29/05/2018, Tiburi “é conhecida por obras com reflexões profundas da cena contemporânea”. Haja profundidade para conceituá-la dessa forma. Mas esse cenário contemporâneo “cool” e implosivo não vive só de teorias. Possuem práticas bastante concretas.

No programa Profissão Repórter, de 21/09/2016, o pichador Rob (Cláudio Roberto Ferreira) expôs a face cínica dessa “arte”. Ao chegar na sua casa, a repórter Eliane Scardovelli questionou: “Cadê a pichação na sua casa?”. Rob respondeu com um sorriso bastante irônico: “Na minha casa não tem nenhuma [...] não pode, não existe, aqui é o descanso, é o lar, tranquilidade [...] só na minha mente e no coração e mais nada, e nas ruas, né?”. Ou seja, pichação na casa dos outros é refresco.

Dentro de cada ato justificador da pichação, há um enorme vazio existencial de não aceitação da realidade. Há também um frio egoísmo de buscar uma transformação visual conforme os desejos daquele que “intervém” no espaço alheio. Nas duas situações, ao encontrar razões teóricas e práticas que legitimem a pichação, há um encontro entre a falta de limites e os instintos volitivos primatas. Se essa “arte” é um espelho para a alma, o quão pobre são as tintas do spray transcendental de seres humanos desconectados da racionalidade?

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