ANO: 25 | Nº: 6360

Divaldo Lara

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04/06/2018 Divaldo Lara (Opinião)

Decisões justas para cada momento

O tema de hoje discorre sobre uma linha tênue entre o respeito à greve dos caminhoneiros e à população de Bagé, destacando o cuidado que tive ao tomar decisões que contemplassem ambas as partes e na hora certa.

Inicio pelo primeiro momento, o de uma greve legítima com reivindicações também legítimas dos caminhoneiros. Sempre estive à frente dos movimentos, apoiando os trabalhadores na luta por suas causas, e agora que vi, com muito orgulho, uma classe inteira mobilizada, unida e lutando, não seria diferente.

Não estive presente, fisicamente, nos eventos de greve, por dois motivos: compromissos pré-agendados, por causas também muito importantes para nossa cidade e outros, envolvendo questões de saúde. E em respeito à classe, emiti uma nota, manifestando meu apoio à greve e me colocando à disposição, nas minhas redes sociais e também publicada em jornal.

A principal reivindicação desses trabalhadores era a redução no valor do óleo diesel, o que beneficia também os produtores rurais. Trabalhadores que, juntos, produzem e fazem chegar o alimento até nossas mesas. A greve ainda reivindicava o fim de alguns impostos em benefício da classe, redução nos pedágios e um marco regulatório para os caminhoneiros. Perfeita e justa luta da classe.

Quando o povo percebe e sente a verdadeira união, mobilizada por todo um país de proporções continentais, é como se despertasse para a reivindicação de outros temas, tão necessários quanto as demandas dos caminhoneiros, mas há um risco nisso.

Um dos perigos ao desfocar dos objetivos principais, é o aproveitamento político que pode ocorrer. Passados alguns dias de sucesso da greve, comecei a perceber intenções ocultas daqueles que apostam no caos para garantir dividendos a seu favor, no sentido político-partidário. Os mesmos que há cerca de um mês tentaram levar uma mesma quantidade de pessoas às ruas, sem sucesso, em favor da soltura de um ex-presidente, prestes a ser preso. Quando esse tipo de intenção começa a se revelar, a causa se esvazia. E ao mesmo tempo, sei que é difícil controlar quando um movimento atinge proporções gigantescas como esse.

Passados 10 dias da greve, período em que me posicionei a favor e respeitei o tempo dos grevistas, mesmo já com a falta de vários itens essenciais em Bagé, como gêneros alimentícios, gás de cozinha e também a gasolina, iniciou um pré-anúncio do fim da greve, do reabastecimento dos municípios e foi neste momento que tomamos uma decisão: a de nos adiantarmos e irmos atrás dos itens que estavam em falta para nossa cidade, iniciando pelo combustível.

Recebi muitos comentários destacando que havia outros itens mais importantes do que a gasolina e que deveríamos priorizá-los. Neste momento, precisamos refletir onde vivemos, geograficamente. Nossa cidade é distante dos grandes centros e muitos dos produtos que necessitamos, inclusive o que garante o tratamento da nossa água, vem de fora.

Mais de três mil bajeenses precisam de tratamento de saúde fora do município todo mês, e dependem dele. Durante o período intenso da greve, fui procurado por vários cidadãos que me relatavam os casos de saúde da sua família e me pediam, como prefeito da cidade, uma solução ou, pelo menos, uma medida provisória.

Tendo combustível, podemos buscar alternativas para qualquer um dos casos. Sem ele, ficaríamos de mãos amarradas e praticamente ilhados.

Ao recebermos os anúncios do fim da greve e também com as demandas dos caminhoneiros atendidas, era hora de sairmos na frente, pois não havia a certeza de que as refinarias conseguiriam atender a todos os municípios de imediato, até que a situação se normalizasse por completo. Nessas horas é preciso que nos adiantemos, antes que o caos se instaurasse por completo. Seria total irresponsabilidade, como gestor da cidade, deixar isso acontecer.

Organizamos, então, juntamente com os órgãos de segurança da nossa cidade, um comboio para garantir a busca de 420 mil litros de combustível e o sulfato de alumínio, produto para tratamento da nossa água, cujos estoques já estavam no fim. Neste momento, reconheço e destaco o grande trabalho realizado pelo Exército, Brigada Militar e Polícia Civil, essenciais na ação e que nos indicava, devido à larga experiência no assunto, a melhor forma de conduzir a operação.

Com essas medidas, nossa cidade já ganha ares de normalidade, com o retorno às aulas na próxima segunda feira, a garantia de água tratada por mais um bom período e o deslocamento dos pacientes, que aos poucos, voltará ao normal.

Com relação ao estado de greve, mesmo que as demandas não tenham sido totalmente atendidas, mostra para o brasileiro que o tamanho do nosso País, infinitamente maior do que outros tantos, é proporcional à sua força. E que, podemos, juntos e com bom senso, reivindicar e garantir resultados. Destaco ainda o apoio e o entendimento de grande parte dos brasileiros, solidários à luta dos caminhoneiros. Foi uma grande lição para vermos que podemos lutar, com limites, de forma pacífica e sem prejudicar, com gravidade, a vida dos cidadãos, que já sofrem com a crise e com problemas pontuais que atingem todo o País.

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