ANO: 24 | Nº: 6108

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
05/06/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Sobre Narciso e o novo espelho

O aprendizado que o mito de Narciso nos proporciona é atualizado de tempos em tempos. Sempre atual. Mantem-se contemporâneo. Mais que a vaidade inerente ao ser humano ele nos fala da satisfação enorme em ver nossa própria imagem refletida em alguma coisa ou alguém. A humanidade já vivenciou o fenômeno do espelho de várias formas: na coragem, nas conquistas, nos filhos, no trabalho de uma vida inteira, na teimosia de um projeto político, social, num livro. Atualmente, este objeto tomou a forma das redes sociais. Todas projetando nossa imagem idealizada e produzindo um encantamento que paralisa. Ficamos imóveis querendo ver mais. Mais de nós mesmos, noutra ocasião, outra roupagem, nova luz, cenário, evento ou companhia.

O reflexo que imobiliza encanta pela aprovação do mundo simbolizado pela curtida que um comentário ou nova fotografia produz. Tempo perdido apreciando a própria imagem refletida. Tempo perdido em troca da satisfação em perceber que somos admirados, vistos. Mas qual foi o grande feito que mereceu apreciação?

Nunca o gesto narcísico de mirar a si mesmo foi tão vazio de significado e inútil como hoje em dia. Difícil seria explicar para as gerações passadas que um pai ou mãe deixou de ler, estudar, trabalhar, brincar com os filhos, adiou indefinidamente momentos preciosos com pessoas queridas afim de mirar sua própria projeção no espelho das redes sociais. É claro que existiu vaidade e desejo de deixar sua marca no mundo em Quéops, Leonardo Da Vinci, Einstein, Vagner, Freud e Sócrates, entretanto, o legado que deixaram é inegável. Mesmo que contrarie algum ponto de vista, suas vidas pessoais foram sacrificadas por um ideal mais profundo que o de Narciso.

E nós? Deixaremos o que, além da sucessão de novas fotos de perfil? Inúmeras e estéreis discussões virtuais e o registro de intermináveis momentos de uma felicidade frágil que as biografias e seus descendentes não confirmam.

Narciso nos ensina, há muito tempo, que para amar e construir uma história que atenda a necessidade de deixar marca indelével no tempo é necessário olhar para si mesmo. Sim, mas com o intuito do autoconhecimento, além do reflexo. Narciso alerta que acima de tudo necessitamos aprender a deixar as projeções de lado e viver. Abrir espaço na mente, no tempo, no cotidiano e no coração para viver de verdade, para experimentar a realidade e acertando ou errando interferir na própria história e não meramente morrer imóvel mirando as várias faces do próprio reflexo.

(Narciso era belo e indiferente ao amor. Filho do deus do rio Céfiso e da ninfa Liríope. Por ocasião de seu nascimento, o oráculo Tirésias anunciou o seu destino, já que os pais ficaram muito assustados com a sua beleza, jamais vista, Narciso teria vida longa se não visse a própria face.)

Olho

Nunca o gesto narcísico de mirar

a si mesmo foi tão vazio de significado

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