ANO: 24 | Nº: 5959

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
07/06/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Perfeitos com defeitos

A natureza humana é uma forma angustiante de convívio entre antagonismos. Incapazes de esquiva diante dessa funesta realidade, resta-nos aproveitar os grilhões que nos prendem nesse eterno jogo de tentativas de acertos e erros.

Contudo, alguns desavisados, encantados por promessas ideológicas estapafúrdias, buscam negar isso, imaginando que podem criar uma filial do paraíso na Terra. Rejeitam que “o homem com discernimento suficiente para admitir suas limitações chega mais perto da perfeição”, como afirmou Goethe, afinal, percorrendo caminho inverso, não admitem limites para suas perfeições.

Em 30/05/2018, jogaram pelo Campeonato Brasileiro de Futebol o Sport e Atlético-MG. Na entrevista pós-jogo, vencido pelo clube de Recife, o vice-presidente de futebol do Sport, Guilherme Beltrão, criticou, de maneira incisiva, o árbitro da partida: “Ele foi minando, porque ele é o malandro carioca, ele vai minando o jogo, ele foi minando o time da gente nas faltas, invertendo faltas, o tempo todinho”. No mesmo dia, no programa Troca de Passes, do canal SporTV, o ex-futebolista e atual comentarista dessa emissora, Roger Flores, não hesitou ao tentar julgar as palavras de Guilherme Beltrão. Em tom sarcástico, alegando desconhecer o vice-presidente do clube pernambucano e dizendo que ele havia falado “um monte de besteiras”, questionou Edinho (outro ex-jogador de futebol e também comentarista): “Nós somos cariocas, gostou da expressão pejorativa que ele usou?”. De pronto, Edinho disse que não é admissível falar que o carioca é malandro. E Roger Flores complementa: “Não, malandro de uma forma pejorativa, isso é o que mais nos incomoda”, cobrando responsabilidade nas declarações do dirigente do Sport e que se evitem generalizações.

Primeiro, não houve generalização por parte de Guilherme Beltrão. De fato, ele não chamou todos os cariocas de malandros. Segundo, malandro sempre representa algo pejorativo. Ou Roger Flores e alguns brasileiros conseguem ver algo de positivo na malandragem? E isso levanta um ponto curioso: o que move a aceitação de características tomadas como boas e a negação das ruins? Por que afastar de chofre qualquer traço negativo? Somos tão perfeitos que passa a ser impossível pensar a existência de algum malandro?

Por falar em futebol, recentemente a Nike desenvolveu um comercial batizado de “vai na brasileiragem”. Nele, há uma enorme ênfase de que existem traços inatos na maneira do brasileiro jogar futebol. A breve película é um resgate de outro comercial famoso, de 1998, em que diversos jogadores da seleção brasileira, entediados pela espera de um voo em um aeroporto, passam a jogar futebol dentro daquele ambiente. Apesar da plasticidade dos dribles e da habilidade demonstrada, a bagunça é instaurada. Seria equívoco mencionar que o Brasil é caracterizado por um ambiente desorganizado onde reina o improviso e se desrespeita cotidianamente as regras de convívio no espaço público? Ou não seria a “perfeição” da nossa prática futebolística uma demonstração de nossos defeitos?

Negar erros ou limitações equivale a negar Goethe, o que nos afastará inexoravelmente da possibilidade de entreolhar a perfeição. Ao esquecer como os defeitos fazem parte de nossa natureza, assentamos os grandes traços de nossa época: indivíduos infantilizados e autocentrados.

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