ANO: 25 | Nº: 6378
12/06/2018 Segurança

Nova frente contra o "jogo do bicho" prende sete pessoas

Foto: Divulgação

Foi desencadeada, ontem, durante todo o dia, a segunda fase da Operação Deu Zebra, coordenada pela titular da 12ª Delegacia de Polícia Regional de Santana do Livramento, Ana Luísa Tarouco. A ação, que visa o combate ao crime organizado e lavagem de capitais, teve o apoio das delegacias de Bagé, São Gabriel e Sant'Ana do Livramento, além da Brigada Militar. Ao todo, foram cumpridos cerca de 40 ordens judiciais, sendo cinco prisões preventivas, realizados bloqueios de contas bancárias e bens. Um imóvel foi sequestrado em Bagé.
Na Rainha da Fronteira, foram presos o genro e a companheira do advogado Mário Sérgio Kucera, além de uma mulher, atendendo mandados. Outras duas mulheres também foram presas, em flagrante. Um homem foi detido em São Gabriel e o advogado, que já encontrava-se preso, teve determinada uma segunda prisão cautelar, em Sant'Ana do Livramento, pelos crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa e jogos de azar.
Segundo a delegada Ana Luísa, Kucera irá cumprir nova prisão preventiva. “Durante as buscas na cela que ele está detido, desde 2017, no Presídio Estadual de Sant'Ana do Livramento, foram apreendidos documentos, telefones e outros materiais. Ele continuava comandando a organização do interior da casa prisional. Pelo menos 70 bancas, em três cidades, estavam sob o controle do advogado”, conta.
Além do “Barão dos jogos” (como é conhecido Mário Kucera), a companheira dele e seu genro foram presos preventivamente. “Ele continuava realizando o trabalho. Apreendemos cerca de R$ 70 mil em dinheiro dessas bancas, onde foram cumpridos os mandados de busca e apreensão e prisão”, acrescenta.
Ana Luísa destaca que há uma ideia equivocada sobre este tipo de crime. “Este delito (jogo de bicho) não é tão inofensivo. Tem um prejuízo financeiro muito grande para as pessoas que se envolvem e há outros aspectos, como a lavagem de dinheiro e organização criminosa que se forma”, completa.
O advogado, de acordo com a delegada de Sant'Ana do Livramento, continuava fazendo o trabalho na mesma sistemática, com máquinas e dinheiro. “Ele não tinha a mesma logística da outra vez, mas estava tentando se reerguer, continuando com o mesmo funcionamento, e tudo coordenado por ele”, explica Ana Luísa.
Nesta segunda fase, segundo informado, participaram 75 policiais civis e 12 policiais militares, todos coordenados pela 12ª DPRI de Sant'Ana do Livramento.

Primeira fase
No dia 25 de abril de 2017, a primeira fase da Operação Deu Zebra foi deflagrada em 14 cidades do Rio Grande do Sul. Foram desenvolvidos 16 meses de trabalho de monitoramento e escutas de telefonemas entre os líderes e subordinados do "jogo do bicho". Na data, foi preso o advogado Mário Sérgio Kucera, o qual a polícia considera um dos maiores líderes da organização criminosa. Descrito na operação como "Barão dos jogos", ele estava em sua casa, no Edifício Avenida, na avenida Sete de Setembro.
Houve, também na época, assim como agora, restrição de contas bancárias e dominial (de domínios), assim como a apreensão de 57 veículos, entre carros e motos. Em São Gabriel, também foi preso, em abril de 2017, Marcos Dierka, que também tinha "bancas" em Bagé e foi apontado como outro líder da organização.
A delegada descreveu que chegou até os dois acusados e demais suspeitos mediante escutas de mais de 415 mil ligações telefônicas grampeadas. Ela também reuniu relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Os documentos revelariam que os grupos teriam se valido de uma extensa rede de lotéricas, lojas e laranjas para lavar dinheiro de origem ilícita do jogo do bicho.
Ana Luísa também contou que foram detectados casos de jogadores compulsivos se desfazendo de patrimônio para entregar aos bicheiros. Em quatro anos, os "barões dos jogos", supostamente, movimentavam mais de meio bilhão de reais (R$ 521 milhões), entre lucros, pagamentos de prêmios e despesas. A organização teria acumulado cerca de R$ 11 milhões em veículos, imóveis e contas.
Os investigadores acusam, ainda, Mário Kucera de atuar no ramo há pelo menos 20 anos, sendo considerado pela polícia o segundo maior "bicheiro" do Estado. De acordo com a delegada Ana Tarouco, Bagé foi denominada "Las Vegas dos Pampas", pois os jogos e apostas ocorriam próximo a estabelecimentos comerciais, com todos vendo e sabendo da atuação. "Era aberto, todos tinham conhecimento e foi dito, por ele mesmo, em escutas, que havia na cidade mais de 300 máquinas de jogo do bicho. Para uma cidade do tamanho de Bagé, é muita máquina, muito jogo", explicou no ano passado.
Ana Luísa conta que mais de 500 funcionários trabalhavam para Kucera. Faziam parte do grupo, vigilantes e até policiais militares, que serão investigados pela corregedoria da Brigada Militar. "Eles tinham todo aparato para realização dos jogos, organizados em recolhimentos e pagamentos para jogadores", completa a delegada de Sant'Ana do Livramento. Na medida em que as investigações avançavam, os agentes foram se espantando com a tecnologia empregada pelo grupo. "Eles alteravam as máquinas de cartões de créditos para efetuar as apostas", detalha. O procedimento eletrônico podia ser acompanhado pelos líderes da contravenção até pela internet, por onde eles fiscalizavam a movimentação e o volume de jogos.

Investigação
A chegada até o líder da organização se deu através de uma denúncia feita em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. "Ficamos sabendo da atuação do MK (Mário Kucera) e, então, em um ano e quatro meses, investigamos todas as ligações para chegarmos até essa operação de hoje (ontem)", ressalta a titular da 12ª DPRI. Uma das bancas, que seria o escritório do "bicheiro", situava-se no Edifício Avenida, onde foram apreendidos diversos materiais, computadores, dinheiro e máquinas. "Ele também dominaria pontos em Santana do Livramento, Rosário do Sul, Caçapava do Sul, São Gabriel e Santo Ângelo", informou, na época, a delegada.
Para a lavagem de dinheiro que circulava pelo negócio, seriam usadas, principalmente, lotéricas da Caixa Econômica Federal em nome de "laranjas", mas, também, contas bancárias em nome de outras pessoas. "Apreendemos motos e carros. O poder Judiciário também bloqueou contas, sequestrou prédios, antigos cinemas, apartamentos e outros imóveis", relata a delegada. Ao revistar a casa do acusado de ser líder da organização criminosa, foram encontrados vários pontos que serviam para esconder dinheiro, em notas de pequeno valor e também recibos.

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