ANO: 24 | Nº: 5959

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
13/06/2018 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

O projeto anti-humano de Bolsonaro

A aventura do golpe, que elevou Temer e sua gangue à condição de dirigentes do país, criou um nível de instabilidade nunca visto no Brasil democrático. Esta instabilidade, que se manifesta não apenas na fragilidade política do governo, mas também na cambaleante economia e mesmo na sensação de desamparo que se amplia em milhões de famílias, acaba por gerar incertezas sobre o futuro, medos e disposição para soluções simples, mesmo que não sejam, em verdade, soluções.

Esse contexto é, também, o gerador dos ódios e das intolerâncias que vimos se expressar em várias esferas da vida política, social e cultural. Revive-se propostas e posicionamentos que imaginávamos superados na história política brasileira. É preciso, portanto, tratar com seriedade esse fenômeno para que não repitamos em nosso país o que já aconteceu aqui e em outros países do mundo, embora em épocas diferentes.

O fenômeno do fascismo, como movimento, como ideologia e como proposta política e governamental, é típico desses contextos de crise. Basicamente, o fascismo submete os humanos à ideia da ordem e da hierarquia, desenvolvendo, paralelamente um sistema de superexploração na economia e um modelo político autoritário, baseado na vontade do líder e na imposição dos interesses da elite dominante.

Por sua natureza, essa ideologia se ancora em valores conservadores extremistas que legitimam o cometimento de barbáries anti-humanas e se sustenta na militarização da vida social e política. É por isso que o balanço dessas experiências, como foi com os fascismos na Itália, com Mussolini, e na Alemanha, com Hitler, e, em certa medida, da ditadura militar, no Brasil, é sempre negativo para os valores do humanismo e para o desenvolvimento da liberdade, da democracia e da igualdade.

Assim é, por exemplo, que durante a ditadura militar no Brasil a desigualdade social cresceu vertiginosamente. Em 1960, o índice de gini (indicador usado para medir a desigualdade, sendo que quanto mais longe de 0 mais desigual é um país) era de 0,53, chegou a 0,60 em 1990, após as duas décadas de regime militar, e retornou a 0,52 durante o período Lula. Esse processo de desigualdade exigiu, evidentemente, uma profunda repressão das demandas populares. Essa repressão se baseou, como se sabe, na destruição das alternativas políticas oposicionistas.

Essa é a tônica dos regimes autoritários fascistas: uma tônica anti-humana e antidemocrática. No tempo contemporâneo, essa natureza autoritária se mescla com a visão neoliberal, que sugere a privatização radical da economia e a estruturação de um projeto social orientado pelos interesses do mercado, que, como sabemos, já não existe como mercado meramente nacional, mas globalizado e subordinado aos interesses e ditames dos grandes conglomerados financeiros e energéticos transnacionais.

Esse é o projeto de Bolsonaro. Sua pré-candidatura tem sustentado já, há algum tempo, propostas como tortura, pena de morte, intolerância para com os opositores, LGBT fobia, machismo, misoginia, restrição dos espaços democráticos (já sustentou que o Congresso deveria ser fechado), etc, etc.

Para se tornar aceito pelo mercado, indiciou um economista ultraliberal para organizar seu programa de governo, demonstrando, de forma clara, essa fusão entre a visão fascista de poder político com a visão neoliberal de gestão econômica. Trata-se, portanto, de uma edição de um novo fascismo, não mais ancorado na ideia de pátria ou nação, mas na ideia de privatização elitista da renda e do capital.

Bolsonaro, portanto, é uma pré-candidatura que sugere ao país um futuro trágico, em que o Estado será colocado a serviço dos superricos e desenvolverá o que há de mais danoso na sua potência de poder, um sistema autoritário e repressivo, que imporá ao povo a condição de servos e/ou escravos dos interesses dos grandes capitalistas internacionais.

Hoje, cerca de 15% da população brasileira flerta com essa perigosa perspectiva. Creio firmemente que sem a consciência clara de onde esse caminho pode nos levar.

É fato que a população já não aguenta mais tantos desmandos, corrupção e falta de vergonha dos políticos, mas, como já vimos no Brasil recente, é possível fazer o país crescer, a democracia funcionar e os pobres serem incluídos no processo do desenvolvimento se escolhermos os políticos certos. Foi possível aprender, também, que a democracia é o único regime que permite que protestos e manifestações populares mudem o rumo das coisas. E Bolsonaro é o contrário disso tudo.

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