ANO: 24 | Nº: 5960
13/06/2018 Cidade

Refugiados: como imigrantes encontraram a paz na Rainha da Fronteira

Foto: Fábio Quadros/Especial JM

Fé contribui para preservação de parte de tradições
Fé contribui para preservação de parte de tradições

por Dhésika Vidikin e Fábio Quadros

O Brasil sempre manteve suas portas abertas para receber imigrantes. E, na Rainha da Fronteira, isso nunca foi diferente. Além do grande número de descendentes de outras nações que vivem aqui, a cidade sempre acolheu quem buscou um lugar para recomeçar.
Os refugiados são um tipo particular de imigrante, já que eles não escolheram migrar por uma simples opção. Eles tiveram que deixar seu país de origem devido à perseguição, por motivos de raça, nacionalidade, grupo social ou opinião política, como, também, grave e generalizada violação dos direitos humanos.
Segundo pesquisa realizada em junho de 2017, pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), existem 65,6 milhões de pessoas deslocadas a força no mundo. Deste total, 22,5 milhões são refugiados. De acordo com os dados, esses são os maiores níveis de deslocamento já registrados.
O Grupo de Apoio aos Refugiados da Região Sul existe há quatro anos e atende, na atualidade, as necessidades de pelo menos 15 refugiados que buscam recomeçar suas vidas em Bagé. O presidente da entidade e filho de refugiado, Nasser Yusuf, diz que a ajuda é até que eles se estabeleçam. “Muitos deles têm dificuldade de aprender o português. Como não entendem, é necessário orientá-los nesse primeiro momento”, comenta.
Existem grupos como esse em várias cidades da região, que, de acordo com Yusuf, estão sempre em contato para evitar que qualquer tipo de preconceito, como o que aconteceu com um senegalês em Bagé - vítima de preconceito - se repita. “Esse cenário já mudou muito, mas nós não damos trégua. Estamos enfrentando”, afirma ele, que alerta: “essa história de que o Brasil não aguenta mais imigrantes na verdade é preconceito, pois se olharmos nossos antepassados todos somos imigrantes”.

Recomeço
Com o coração apertado e aflito, porém cheio de esperança, os refugiados tentam recomeçar a vida. Acolhido pelo grupo, Jomma Awad perdeu dois irmãos e a noiva na guerra da Síria. Ele vive há quase três anos em Bagé. “Quando eu morava lá tinha muita guerra, não tinha luz nem água. Agora falo com minha família e já tem. Está mais calmo”, conta.
Atualmente, Awad trabalha na área da construção civil, função que já exercia em Damasco, capital da Síria, onde morava. Ainda com dificuldades de falar português, ele também afirma que não pretende voltar para seu país. “Deixei minha família na Síria e vim para o Brasil. Aqui não tem guerra, Brasil é tranquilo”, avalia.
A história de Amal Karime é um pouco diferente. Ela e a família vieram de Alepo. A cidade, que fica no norte da Síria, é o principal campo de batalha da guerra, como ela mesma não esquece. “No começo da guerra eu olhava apenas na TV. Estava longe de onde eu e minha família morávamos, depois ela chegou no Alepo. Eu morava no quinto andar e ouvia os aviões passando e as bombas. Pessoas morriam, acabava a água e a luz em toda cidade. Às vezes, a gente ficava uma semana sem alimentos, pois não havia nada para as pessoas comprar. A vida ficou muito difícil”, lamenta ao relembrar dos dias difíceis e quase impossíveis de contar sem deixar a tristeza tomar conta do ambiente.
Ela destaca que deixou familiares na Síria e que é muito difícil para eles abandonar tudo. Amal frisa que mesmo assim decidiu vir ao Brasil, pois tinha medo de alguma coisa acontecer com suas filhas. “Eu mandava elas para o colégio e não sabia se iam voltar. Ficou perigoso. Por isso eu e meu marido deixamos tudo e viemos embora”, relata.
Quando chegaram ao Brasil, ficaram seis meses em Vila Velha, no Espírito Santo. Depois foram direcionados para a Colônia Nova, onde receberam o apoio dos moradores da cidade e, por fim, em 2014, chegaram em Bagé. “No nosso país tinha guerra e nós pensamos em ir embora. O Brasil estava aberto, falava bem-vindo para pessoas sírias”, conta.
Amal mora com o marido e as três filhas há quatro anos na cidade. Neste período, reconstruiu sua vida e montou seu próprio negócio. Mas a saudade é contínua e recíproca. Seu pai, mãe e irmãos querem que ela volte, mas, no momento, ela diz ser algo difícil. Para matar um pouco dessa saudade, no início deste ano, ela e uma de suas filhas, voltaram para Alepo, mas apenas para visitar.

Mantendo os costumes
Longe de seus países de origem, fica complicado manter os costumes da cultura, já que tudo é muito diferente e novo. A maioria dos imigrantes e refugiados que vivem na Rainha da Fronteira são de regiões árabes, como Síria, Palestina e Líbano e, também, de Senegal, país que fica na África Ocidental.
Além do grande fluxo de refugiados e imigrantes que estes locais têm em comum, a religião é outro fator que cria laços entre eles. Segundo Yusuf, existe uma grande comunidade em Bagé que segue as crenças. “O muçulmano deve comparecer toda sexta-feira à mesquita, é sagrado. Nós fazemos cinco orações por dia. Inclusive nos países muçulmanos o feriado é sexta-feira, já dos judeus é sábado e dos cristãos é domingo. Temos um centro religioso onde nos encontramos. Todos os refugiados e imigrantes participam, o islamismo é uma religião que não discrimina cor, raça, sexo ou religião”, destaca.
O Masjid Centro Islâmico Bagé fica no segundo andar da Galeria Dalé Center, na avenida General Osório, 874, próximo à praça Silveira Martins (do Coreto). Dentro da mesquita, todos devem entrar descalços para não sujar o tapete onde oram. Eles também se cumprimentam em árabe “Assalamu alaikum”, que significa, em português, “Que a paz esteja convosco”, e as mulheres devem cobrir o cabelo.
Antes de iniciar as orações, os fiéis lavam o rosto, as mãos e os pés, concluindo o processo chamado de pureza física. Na sequência, começa o sermão, em que um muçulmano faz a leitura do Alcorão e discursa sobre um determinado assunto.

Curiosidade
Este mês, em especial, os muçulmanos estão participando do Ramadan, que é um período de sacrifícios em que realizam o jejum ritual. Acontece no 9º mês do calendário lunar islâmico, durante quatro semanas. Neste período, os muçulmanos não podem ingerir qualquer alimento do nascer até o pôr do sol.
Mohamed Yacoub, natural de Jerusálem, que mora atualmente em Aceguá, conta um pouco sobre esta tradição. “Este é um mês sagrado para os muçulmanos, de confraternização, preces e súplicas. Os muçulmanos do mundo inteiro se unem mais. Durante esse período, fazemos orações facultativas, fora as normais que realizamos cinco vezes ao dia”, explica.
Esses 30 dias são dedicados à reflexão espiritual, rezas, boas ações, caridade e autodisciplina. É o tempo para estabelecer uma maior aproximação com Deus e educar o corpo e a mente. “É natural que o corpo fique cansado, mas, em contrapartida, sentimos uma satisfação por estar alimentando a alma”, encerra Yacoub.
Ao final do Ramadan, que ocorre nesta quinta-feira, os muçulmanos celebram o “Eid-al-Fitr”, que significa celebração do fim do jejum. Assim, se festeja a gratidão a Allah pela bênção de haver completado o jejum do mês abençoado.

A guerra
Tudo começou em 2011, quando, durante a Primavera Árabe, uma onda de protestos populares contra ditadores, que já atingia boa parte de países como Tunísia, Líbia e Egito, chegou na Síria. Parte da oposição pegou em armas e a revolução popular evoluiu para uma guerra devastadora e complexa.
Segundo dados do ACNUR, cerca de 6,1 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas e 5,6 milhões de refugiados deixaram tudo para trás e buscaram segurança em países vizinhos. A Guerra da Síria completou, em março de 2018, sete anos de conflito, deixando mais de 400 mil pessoas mortas.

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