ANO: 25 | Nº: 6382

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
14/06/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Dona Sarita

Uma senhora que dirigia com alinho uma camioneta Studebaker verde. É a imagem que recordo de dona Sarita quando voltei para exercer o magistério. Sua família morava perto donde vim residir com meus pais. Conhecia a boa fama de seu marido, médico exemplar, modelo de profissional.
Dispôs a Providência que viesse a ser professor da filha do casal. Que a namorasse depois que deixara de ser aluna. Assim eram os tempos. Passei a conhecer, então mais próxima, quem seria mais tarde avó de minhas filhas. De início encontros eram frente à casa dela ou na pracinha do Alá. No carro, mas à vista de todos. Um cinema, acompanhados. Já disse: assim eram os tempos. Nesta maturação afetiva e formal, também crescia a admiração pela pessoa que, então, já me destinava lhaneza e respeito; construí a imagem de alguém singular; amiga; diferente.
Certa época, quando dona Sarita aniversariou, em nome dos presentes, eu lhe disse ser pessoa privilegiada, pois naqueles oitenta anos de sua existência o mundo tinha conhecido dezenas de papas, duas sangrentas guerras; o país elegera muitos dirigentes; muitos prefeitos; e que o cometa de Haley passeara pelo céu em sua homenagem. Mas, também, a comparei a uma matriarca romana. Pois assim como essa virago, que via partir os filhos, um a um, para as lutas de que não retornariam vivos, ainda moça, bonita, elegante, assistira falecer, precocemente, seu marido, o que a fez manter a dignidade da viuvez, até que ela, depois de sessenta anos, viajasse ao encontro do amado. Os desígnios também não a pouparam, anos depois, de chorar a morte de um filho; e a merecer, agora, injustamente, a flor que se enraizara em sua bela face.
Neste trajeto tombaram fiéis ajudantes e amigas, sublimando esse rosário de aflições com o heroísmo estoico, a crença na religião praticada, o apreço ao próximo, a discrição reservada, mas, sobretudo, a afeição aos seus, tornando-se matriz e farol para os que a rodeavam. Os genros, quando em momentos diversos perderam as mães, tiveram, nela, a referência que não substituía, mas que dava alento, incentivo, compreensão; o ombro que aconchega; o sorriso que anima; mesmo a censura que não machuca. E sempre presente em todas as alegrias ou dissabores, aniversários, formaturas, casamentos, batizados, comemorações, doenças.
No dia de Nossa Senhora, como hábito, fui à igreja. O templo estava vazio, a missa era mais tarde. Repentinamente, alguém me toca e entrega duas rosas. Aparentemente, sem motivo, pois não o fez com os poucos dali. Minha mãe me ensinara que o gesto era mensagem de Santa Terezinha. Podia ser. De volta passei-lhe as flores. Sorriu com a luminosidade de seus olhos.
Há mais de quarenta dias, aceitara enfrentar derradeiro tratamento. Longe de casa, de seu conforto. Resistiu com coragem. Não desaprovou a esperança dos que a cuidavam com desvelo e ciência. Mas a insidiosa faina a foi abatendo em saúde e vida. Em algum lugar a queriam, carentes de sua presença. Invejosos de sua companhia. Deu a honra de perfumar nossa casa com o alento de sua despedida. Combateu o bom combate. Um delicado suspiro levou a grande dama Cansada, abdicou da festa de seu centenário.
Enganou-se, sua lembrança será eterna!

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