ANO: 25 | Nº: 6309

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
14/06/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Entre porcos, galinhas, hienas e cães

O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, sofreu uma pequena derrota jurídica. Em março de 2013, quando Barbosa saía de uma sessão do Conselho Nacional de Justiça, o jornalista Felipe Recondo, do jornal Estado de S. Paulo, tentou iniciar um questionamento: “Presidente, como o senhor está vendo...”. De súbito, o ex-ministro do STF disse: “Não tô vendo nada. Me deixa em paz. [...] Vá chafurdar no lixo como você faz sempre”. Barbosa ainda teria resmungado a palavra “palhaço” ao se afastar do repórter. Após esse episódio, Recondo entrou com uma ação por danos morais. A indenização, estipulada no valor de R$ 20 mil ao jornalista, foi confirmada em fevereiro do corrente ano pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal.


Na última semana, no âmbito da política, a grande mídia tem se ocupado exaustivamente sobre o tema da ausência de Jair Bolsonaro em encontros com presidenciáveis. Surfando essa onda, a candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Manuela d’Ávila, resolveu apelar para o humor. Em sua página do Facebook, no dia 07/06/2018, Manuela divulgou: “Tô esperando encontrá-lo nos debates, mas parece que ele... #melhorJairArregando”, seguido de uma montagem em que a cabeça de Bolsonaro está sobre o corpo da galinha Ginger, personagem principal do filme “A fuga das galinhas”. Curiosa situação, afinal, Manuela não hesitou em processar (não obtendo êxito em sua ridícula tentativa) o humorista Joselito Müller quando ele satirizou sua ida a passeio para uma das cidades ícones do capitalismo, Nova Iorque. Duplo padrão? Ou talvez ela tenha aprendido que o humor é algo que auxilia na compreensão da realidade?


Já no programa Pânico da Rádio Jovem Pan, de 23/04/2018, a possível candidata à presidência da República, Marina Silva (Rede Sustentabilidade), ao ser provocada sobre seu hábito de comparar políticos e partidos a animais, declarou: “O Bolsonaro eu preciso arranjar um animal exótico se não o povo vai correr atrás do bichinho. Uma hiena”, arrancando gargalhadas dos presentes. Antes disso, Marina, mostrando uma dose agradável de humor, havia se comparado ao inhambu macuco, em virtude de se enxergar como educada e meio sem graça.


Em uma época dominada pela indignação seletiva, não faltam mimados ofendidos e ungidos que possuem salvo-conduto para ofender. Por mais que a declaração de Barbosa possa ser vista como extremamente grosseira, jornalistas, assim como agentes públicos, não estão imunes a palavras duras ou metáforas desagradáveis em razão de suas tarefas. Ofender-se com um porco é ofender-se por muito pouco. No caso das comparações feitas com Bolsonaro, basta imaginar o que ocorreria caso ele fizesse as mesmas comparações com suas adversárias políticas. “O mundo caía na minha cabeça”, conforme destacou, acertadamente, o político.


Talvez a situação do atual lateral-direito da seleção russa de futebol, Mário Fernandes, possa servir como um exemplo indigesto a ser seguido nesse mundo sombrio. Mesmo apresentando evoluções na compreensão do idioma russo, o ex-jogador do Grêmio pouco fala, dada as dificuldades daquela língua. Stanislav Cherchesov, técnico da seleção russa, decretou: “Mário é como um cachorro. Ele entende tudo, mas não consegue falar nada”. Comportar-se como um cão pode ser a melhor opção em um universo de ofendidos.

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