ANO: 25 | Nº: 6404

Fernando Risch

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Escritor
15/06/2018 Fernando Risch (Opinião)

Não sei o que pensar sobre o aperto de mãos de Trump e Kim Jong-un

Desde as indicações de uma aproximação entre Donald Trump e Kim Jong-un, trazendo Estados Unidos e Coreia do Norte a um histórico encontro de paz, minha reação, como pacifista que penso ser, sempre foi de alegria -  e um pouco de alívio. No aperto de mãos entre os dois líderes, vibrei, nutrindo uma estranha simpatia pelos dois. Foi então que, neste meu bizarro e breve culto às personalidades, mudei o pensamento.

A primeira coisa que me veio à mente foi George Orwell, com o trecho final de A Revolução dos Bichos: "As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco". A obra é uma crítica à União Soviética autoritária de Stálin. Quando Orwell escreveu o trecho, ele se referia à Conferência de Potsdam.

Em Potsdam, Churchill, Truman e Stálin sentaram-se lado a lado e foram fotografados como os líderes vitoriosos da Segunda Guerra Mundial e lá, em território alemão, decidiriam o futuro da Europa e do mundo após a derrota dos nazistas. O desgosto de Orwell frente àquela cena se dava muito pelo Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado em 1939, quando Stálin e Hitler compactuaram numa não agressão. Ambos ambicionavam o domínio total do planeta. A ideia era enfrentarem-se por último e decidir quem planificaria o mundo com seu regime. Hitler quebrou o pacto em 1941, com a Operação Barbarossa, que levaria a sua derrocada 4 anos depois. Para Orwell, era inaceitável aquela mudança em relação a Stálin.

A união entre Aliados e URSS foi uma aliança necessária para pôr fim à guerra e liquidar os nazistas, mas a Conferência de Potsdam, a simbólica reunião de paz, nada mais foi que um loteamento entre EUA e URSS do que antes era território do Eixo, incluindo a península da Coreia, dividia entre Sul e Norte. Pouco tempo depois, deu-se a pior polarização política da história do Planeta Terra, com o início da Guerra Fria.

Kim Jong-un é o herdeiro de uma ditadura de três gerações, começada com seu avô Kim Il-sung, em 1948, no pós-Guerra, e deixada pelo seu pai, Kim Jong-il. Testes nucleares e ameaças constantes de bombardeios – muito disso, diga-se, apenas para pressionar países a ceder às necessidades da Coreia, como importação de alimentos. Já Donald Trump é um incendiário, um autocrata comandando uma democracia – a mais poderosa do mundo. Trump igualmente bélico na lábia e no poderio ofensivo, também faz suas ameaças de bombardeios e guerras. E nós, no meio deles, aguardando os egos se acalmarem.

Se esse aperto de mão pacífico ocorreu, infelizmente, não foi por uma iniciativa natural dos líderes, buscando derrubar uma barreira septuagenária entre as duas nações, mas uma consequência de ameaças que poderiam colocar o mundo em risco, visto que há pouco tempo Trump dizia que "o homem-foguete tem uma missão suicida para si próprio e para o regime", referindo-se a Kim; e o norte-coreano respondia dizendo que era Trump um"senil americano mentalmente perturbado".

A questão que fica no ar é se essa aproximação pacífica entre Kim Jong-un e Donald Trump, cheia de sorrisos e brincadeiras, é uma fachada alegórica, com consequências mais críticas no futuro, como muito se viu em outros tantos casos na história da humanidade; ou se será realmente um marco de paz. Infelizmente, por mais juízo que esperança, eu não me arriscaria na segunda opção.

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