ANO: 25 | Nº: 6261

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
16/06/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Pais que amam demais

O psicólogo clínico Rossandro Klinjey, mais uma celebridade da internet (e só da internet), chama de “Geração Moral e Cívica” aqueles que, mais ou menos nos anos 70 (incluindo o fim dos anos 60 e início dos 80), estudaram Moral e Cívica (OSPB e EPB) e enfrentaram inúmeras adversidades para sua formação básica (1º e 2º graus). Inspirado por um vídeo dele (https://youtu.be/Jv8NvjGnTp0), faço, a seguir, um breve resumo dessas dificuldades – acrescentando outras por minha conta – e do argumento por ele desenvolvido.

A “Geração Moral e Cívica” estudou em escola pública ou em escola particular com bolsa (concedida por políticos ligados ao governo militar, inclusive), usou Conga, Kichute ou Bamba, restaurou com um preguinho aquela tira arrebentada das Havaianas, estudou em livros velhos e usados que precisavam ser encapados e remendados com Durex. Se divertia no recreio com bola de meia. Ia sozinho para a escola naquele tempo em que transporte escolar era Anversa, Bispo, Nunes ou Waldomiro Brasil.

Enfim, conseguiram vencer, superar as adversidades, se estabelecer na classe média, ganhar bem ou, pelo menos, ganhar melhor. Porém, muitos destes, relembram esta vida com mais dificuldades que as enfrentadas hoje, para justificar a decisão de evitar que seus filhos passem por tudo que eles passaram.

Tal decisão parece revelar que o seu idealizador pode não ter levado em consideração que exatamente por ter passado por tudo que passou, ele chegou aonde chegou. Não se quer dizer com isso que ele tenha que privar o seu filho de coisas e confortos que pode proporcionar, mas não convém esquecer que as muitas dificuldades enfrentadas no caminho é que o tornaram mais forte. E, assim, concluir que proporcionar uma vida muito fácil para seus filhos, pode os enfraquecer.

Pessoas fracas não têm resiliência, ou seja, resistência a impactos, aquela capacidade psíquica de suportar a frustração. Não conseguem entender que levar um fora, sair mal numa prova e não ter um smartphone moderno como “todo mundo”, faz parte da vida. E que ninguém precisa pensar em se matar só porque teve que encarar um destes revezes.

Em vez de fazer uma tempestade em copo d’água cada vez que não atinge um objetivo, o resiliente desenvolve a capacidade de levantar, sacodir a poeira e tentar de novo até conseguir ou, pelo menos, se convencer de que não tem condições ou capacidade para conseguir aquilo que pretendia e, assim, mudar de foco.

Outra atitude infeliz, que vem a reboque desta de mimar demais os filhos, é querer ser amiguinho dos filhos. Uma coisa é a gente ter uma relação mais próxima e afetuosa com os nossos filhos, em comparação com a relação mais distante e fria que tivemos com os nossos pais. Outra coisa é a gente renunciar à posição de pai e mãe, com a autoridade, responsabilidade e superioridade inerentes ao “cargo” e se rebaixar à posição comum e igualitária de amigo, companheiro, cúmplice e, até mesmo, de concorrente e/ou adversário do filho.

Por trás de tudo isso, algo muito difícil de ser condenado, ainda que não reste dúvida de quem seja o culpado. Amar demais, mimar demais, só não é mais nocivo do que ser indiferente ou abandonar os filhos à própria sorte. E só é um erro recorrente porque os pais que amam demais raramente testemunham em vida todo o mal que fizeram aos próprios filhos. Só os que sobreviverem aos pais que amam demais, verão o estrago que eles fizeram.

 

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