ANO: 25 | Nº: 6209

Rochele Barbosa

rochelebarbosa@gmail.com
Jornalista formada pela Universidade da Região da Campanha. Responsável pela produção e reportagem do caderno de Saúde do Jornal MINUANO
18/06/2018 Caderno Minuano Saúde

Adolescência e as drogas

Foto: Divulgação

página 2 e 3
página 2 e 3

O uso de substâncias psicoativas sempre esteve presente na maioria das culturas desde os primórdios da civilização. Atualmente, no entanto, há uma preocupação crescente entre familiares, profissionais e governantes com relação ao aumento dessa prática, na faixa etária de 10 a 19 anos, sendo que a maioria desses indivíduos está na adolescência, que corresponde a faixa etária de 12 a 18 anos, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O Relatório Mundial sobre Drogas, divulgado em 2016, revelou um aumento no número de pessoas com dependência química em todo o mundo – de 27 milhões em 2013, para 29 milhões, em 2014 – onde cerca de 250 milhões de pessoas entre 15 e 64 anos já usaram pelo menos um tipo de droga.

Nesta edição, a professora, psicóloga e mestre em Prevenção e Assistência a usuários de álcool e outras drogas, do curso de Psicologia da Universidade da Região da Campanha (Urcamp), Herondina de Freitas Cavalheiro explica sobre o tema.

 

Números preocupantes e doenças relacionadas ao uso de drogas

 

No Brasil, em 2010, o Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), juntamente à Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), realizou o “VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio da rede pública e privada, em 27 capitais brasileiras. Dentre os resultados, destaca-se que o primeiro uso de drogas para 10,4% dos estudantes brasileiros se deu na faixa etária dos 10 aos 12 anos e que, 42,8% do total de estudantes pesquisados já havia feito uso de algum tipo de drogas pelo menos uma vez na vida.

Estudos mostram que o uso de álcool e de drogas, na adolescência, pode colocar em risco a saúde física e mental desses adolescentes assim como suas vidas e de outros, ao gerar problemas, tais como o envolvimento em acidentes que levam a óbito, violência e brigas, problemas com a lei, entre outros. “Esses adolescentes também estão mais propensos a práticas de risco, como atividade sexual sem proteção, o que tem aumentado a ocorrência de contração de doenças como hepatite C, B, sífilis, DSTs e AIDS”, conta a professora Herondina.

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Outro risco a considerar são as alterações no desenvolvimento do cérebro, em razão do uso de álcool e de drogas, que podem conduzir à dependência.

São elas:

a) o uso precoce afeta as estruturas cerebrais responsáveis pela percepção temporal e pelo controle de impulsos, e que estão em fase de amadurecimento;

b) causam interferência no hipocampo, conduzindo a prejuízos na aquisição de habilidades cognitivo-comportamentais, ao prejudicar a memória e o aprendizado;

c) produzem alteração no sistema de recompensa cerebral, composto pelo núcleo accumbes, área temporal ventral e córtex pré-frontal e sua relação com o sistema límbico (associado às emoções), e nos principais centros responsáveis pela memória (amígdala e hipocampo).

 

Alguns fatores que levam o indivíduo a fazer uso de drogas são considerados de risco. Também existem fatores que protegem contra o uso, sendo considerados de proteção, informa a profissional.

Segundo a professora Herondina, os fatores socioculturais, familiares, grupo de amigos e colegas e fatores individuais, como os que resultam das vivências na infância, podem contribuir para o uso de drogas por adolescentes. “Porém, esses mesmos fatores podem ajudar o adolescente a se manter afastado de drogas, constituindo-se como um fator de proteção. A diferença está na qualidade das interações que o adolescente estabelece em cada um destes contextos”, completa.

Dentre os fatores individuais possíveis de se constituir fatores de risco para o uso de drogas na adolescência, observa-se a presença de outras patologias psiquiátricas, complementa a psicóloga, sendo as mais frequentes: transtornos de conduta; de deficit de atenção e hiperatividade; depressão maior e transtornos de ansiedade. “Também, a curiosidade natural do adolescente, que pode influenciá-lo na experimentação de substâncias. Além disso, um repertório pobre de habilidades sociais, como, por exemplo, indivíduos com baixo nível de autocontrole, podem estar mais predispostos a desenvolver transtornos por uso de substâncias”, acrescenta a especialista.

Em contraste, um comportamento socialmente habilidoso pode auxiliar um desenvolvimento saudável. Um repertório rico de habilidades sociais na adolescência permite a expressão de sentimentos e opiniões, a tomada de atitudes, a negociação de direitos de forma adequada à situação e a capacidade para solucionar ou minimizar os problemas, destaca Herondina.

“No que concerne à influência do contexto familiar, relações conflituosas na família, rupturas ou presença de dependência química, no círculo familiar, podem se constituir como fatores de risco para o uso de drogas na adolescência. É nesse primeiro núcleo social que se originam as formas, os exemplos de resposta e de ação. A forma de se relacionar com as pessoas é aprendida no contexto familiar e depende dos exemplos de competência social, das condições ambientais e da qualidade dos estímulos oferecidos. A ausência ou ineficiência dessas habilidades nos pais pode resultar em problemas comportamentais e emocionais nos filhos”, salienta.

Quando as relações familiares se constituem como fator de proteção, são caracterizadas por:

a) fortes vínculos;

b) estabelecimento de regras e limites claros e coerentes;

c) monitoramento e supervisão;

d) apoio;

e) negociação e comunicação

f) convencionalismo e equilíbrio.

 

Herondina destaca que o contexto da escola pode ser um fator de risco para o desenvolvimento saudável, como quando não existe apoio ao enfrentamento de divergências, sejam elas referentes aos problemas entre colegas, com professores ou relativos à baixa produtividade escolar.

Entretanto, a escola pode funcionar como um fator de proteção em relação ao uso de drogas. É um contexto em que podem ser cultivadas boas práticas nos relacionamentos interpessoais. Pode ser, também, um espaço rico para abordar o tema das drogas em programas de prevenção, destinados aos adolescentes, aos professores, à família e à comunidade em geral”, declara.

O programa para os adolescentes, segundo a literatura, deve enfocar o desenvolvimento de habilidades sociais, o que inclui o aprimoramento dos relacionamentos entre pares, autocontrole, habilidades de enfrentamento, comportamentos sociais e habilidades de recusa do enfrentamento de drogas. Já o programa direcionado à família busca melhorar os relacionamentos familiares e desenvolver habilidades parentais, incluindo informações sobre abuso de substâncias.

A relação com os pares tem um papel fundamental na adolescência, garante a psicóloga, podendo funcionar como um fator de risco ou de proteção. “A qualidade das relações, na comunidade, também pode influenciar positiva ou negativamente. É fácil perceber como esta influência pode operar negativamente, ao lembrar-se que a relação com drogas ocorre por etapas, iniciando com o uso experimental em contexto social e passando para o uso casual, com uma intensificação gradativa na frequência. Da mesma forma, a falta de suporte social no enfrentamento de dificuldades, em especial, nos relacionamentos interpessoais, pode tornar-se um fator de risco para o uso de drogas na adolescência”, enfatiza a profissional.

 

 

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