ANO: 24 | Nº: 6163

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
21/06/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Pelo menos a cerveja era boa

Um dos subprodutos da democracia contemporânea é o cinismo. É interessante notar como os maneirismos intelectuais do progressismo, ao refletirem sobre temas históricos, acabaram encontrando no cinismo a chave para a defesa de seus escorregadios interesses. Um exemplo disso se vê no debate sobre a realidade brasileira entre os anos de 1964 e 1985. Ditadura, regime ou revolução? Para um cínico, casado com o progressismo, não haveria uma forma melhor de expor sua desfaçatez ao lhe questionar como ele denomina aquela época e por quais fundamentos.

A respeito do pós-64, é curioso ver como é o comportamento daqueles que buscam afirmar, com razão, de que foi uma ditadura. Na maior parte dos casos, há uma ênfase exacerbada em “perfumarias” e nos atos cruéis que marcaram aqueles tempos, esquecendo-se propositalmente das causas que originaram tal regime de exceção.

No caso, enquanto documentos da CIA, contendo relatos de terceiros, são tomados por progressistas como verdades incontrastáveis para comprovar torturas e execuções sumárias realizadas em nome do Estado, com ampla divulgação na grande mídia, as revelações oriundas dos serviços secretos soviéticos são praticamente descartadas. Seria um receio para que não se desconstrua o monopólio do discurso da esquerda política?

Em 06/06/2018, o El País revelou que o StB, serviço de inteligência da antiga Tchecoslováquia, submetida hierarquicamente à soviética KGB, interviu na política brasileira. Conforme a reportagem, embasada nos documentos expostos no livro “1964 – O elo perdido”, o StB contou com 130 pessoas atuando em operações no Brasil entre 1952 e 1971, buscando aliciar brasileiros nacionalistas/antiamericanos e se infiltrar no Itamaraty, Governo Federal, Parlamento, Petrobras, Exército e BNDES. E mais: os arquivos revelaram que ocorreram falsificações de documentos para culpar os EUA no golpe de 1964, intermediações para envio de armamentos, financiamento de um jornal, assim como a intenção de causar uma guerra civil no Brasil (existindo contatos entre o StB e Leonel Brizola) em 1961. Arquétipos de ações democráticas? Portanto, debater o período 1964-85 sem levar em consideração essa realidade é, para dizer o mínimo, algo deveras leviano.

Todavia, durante sua estada no país, os tchecos realizaram análises sociais peculiares. Em alguns documentos, os agentes relataram que os brasileiros têm “um desprezo pelo trabalho”, sendo muito preguiçosos. Outro apontamento indicou que a classe média tinha o hábito de listar os cursos e faculdades que possui, “mas, na verdade, o conhecimento adquirido por eles é muito superficial, o que significa que no Brasil, por regra, encontramos pessoas ignorantes, que, mesmo com numerosos títulos científicos, não chegam aos pés da nossa gente [...]”. Em todos esses anos, conseguimos nos afastar desse funesto bacharelismo ou o fato de sequer ter conhecimento sobre como os comunistas tentaram tomar o poder no Brasil é a comprovação explícita da nossa ignorância estimulada por narrativas esquerdistas repletas de má-fé?

Mas um detalhe final chamou muita atenção. Os agentes tchecos afirmaram que as cervejas brasileiras eram boas, independente das marcas. Se pelo menos esses documentos secretos não viessem a público, poderíamos continuar acreditando que a cerveja ainda é excepcional.

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