ANO: 25 | Nº: 6236

Fernando Risch

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Escritor
22/06/2018 Fernando Risch (Opinião)

A cerveja sabe a verdade

Quando pequenos, os professores nos perguntam o que queremos ser quando crescer. Respondemos as mais diversas fantasias. Geralmente seguimos a influência de nossos pais porque simplesmente não temos ideia. Quando me perguntaram na pré-escola, respondi "ladrão". Falei como piada, mas hoje vejo aquilo como uma espécie de protesto. Eu não tinha capacidade para saber, era uma pergunta complexa demais.

Assim, também não tinha capacidade quando, na minha adolescência irresponsável, tive de escolher o que fazer para o resto da minha vida. Por sorte, eu me adapto e consigo me encontrar no meio do caos. Por exemplo, eu nunca imaginei que um dia eu estaria escrevendo essas linhas, pelo simples fato de eu nunca ter sabido escrever direito. Mas eu me adaptei e cá estou (e isso não quer dizer nada). Você pode fazer algo muito bem – e até gostar disso – durante todos os dias da sua vida, mas não necessariamente encontrou aquilo que, de fato, é o que faz você acordar pensando e dormir pensando.

Eu gosto de cerveja, todos os tipos dela. Tenho uma relação matrimonial com a bebida. Sei trazê-la ao meu encontro e afastá-la quando não devo. É um relacionamento cuidadoso, como se deve ter com qualquer coisa que faz perder a linha ou cair na vala, caso não se saiba lidar. Além do gosto que uma pilsen, IPA ou Weiss possa me atirar ao paladar, sei ler também a mensagem que a cerveja me traz. Ela sabe a verdade.

Foram poucas vezes na vida que abri uma cerveja com orgulho, com o sentimento de dever cumprido, de trabalho realizado com sucesso, depois de uma exaustão de labuta. É a cerveja da recompensa. Ela tem um sabor especial, é merecida. Você sabe do que eu estou falando, caso um dia tenha experimentado esse sentimento. A bebida falou e eu ouvi. Ela disse: "Camarada, está sentindo isso? É para esse trabalho aí que você nasceu". Então, nesses breves e poucos momentos, eu sabia qual trabalho realmente me dava prazer.

E é neste ponto que a coisa fica estranha. Eu tenho várias atribuições profissionais e gosto de fazê-las todas, mas por mais que eu me esfole, brigue e conquiste a maior das glórias dentro delas, depois de um dia ou semana pesada, a cerveja aberta me fala: "Bacana, mas você só está bebendo para tentar afastar esse esforço todo empregado em algo que não é sua vocação". E eu bebo essa verdade. Geralmente tenho que beber em dobro, para esquecer até a verdade que a própria cerveja me contou, para depois ministrar sua ressaca em tom lamurioso.

Cada um sabe aquilo que gosta de fazer, mas poucos sabem sua verdadeira vocação profissional para acordar todos os dias de suas vidas felizes, pulando obstáculos desafiadores, mas prazerosos; poucos sabem a real força propulsora que nos move entre a realidade e o sonho. Quem ainda está em dúvida, pergunte a cerveja numa sexta-feira, à noite, depois de trabalhar feito um condenado. Ela dirá a verdade, basta saber escutá-la.

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