ANO: 24 | Nº: 6137

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
23/06/2018 Airton Gusmão (Opinião)

A vida é feita de encontros

Estamos vivendo a 33ª Semana Nacional do Migrante, com o Lema: “A vida é feita de encontros: braços abertos sem medo para acolher”. Lembramos da parábola do juízo final a afirmação do Senhor que diz: “eu era forasteiro e me acolhestes” (Mt 25,35). Celebramos neste dia 24 de junho o Dia Nacional do migrante.
O que leva uma pessoa a deixar sua cidade ou o país em que nasceu e procurar um novo lugar para recomeçar a vida? As perguntas, embora genéricas e superficiais, fazem pensar sobre uma questão que afeta pessoas em todo o mundo: a migração.
As guerras, catástrofes naturais, crises políticas, questões e decisões econômicas e perseguição religiosa fazem com que muitas pessoas sejam obrigadas a deixar suas casas; no entanto, outras escolhem sair em busca de uma especialização ou mesmo de uma oportunidade de trabalho. O fato é que nunca como hoje o mundo viu crescer o número de pessoas que chegam, desejam ou precisam permanecer em regiões que, em princípio, parecem não ter lugar para elas.
Na Bíblia, encontra-se a preocupação de Deus pelos migrantes. Repetidamente, o povo de Israel é ensinado a se lembrar dos estrangeiros que vivem entre eles e os tratá-los com amor e justiça. Deus ordena que os israelitas não os maltratem (Ex 22,21) e não tirem vantagem deles (Dt 24,14). E quando se encontram em situação de vulnerabilidade, Deus cuida dos estrangeiros com especial atenção (Lv 19,9-10). Eles devem ser tratados como se fossem naturais da terra do povo eleito (Lv 19,34).
Na pedagogia de Deus para formar seu povo, Ele ensina a não oprimir os estrangeiros (Ex 23,9). E afirma: “Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros” (Dt 10,19; Ex 22,21), pois, na realidade, segundo o Levítico, todos, hebreus e imigrantes, são hóspedes e estrangeiros na terra, que é de Deus (Lv 25,23).
Deus, para dar-se a conhecer ao ser humano, escolhe fazer-se migrante. Jesus se apresenta como migrante para desfazer preconceitos e poder tornar-se verdadeiramente próximo. No Novo Testamento os cristãos são chamados de ‘peregrinos’, isto é, “apenas migrantes”, peregrinos nesta terra (Hb 13,14).
Conforme estimativa da ONU, a população que vive fora do país em que nasceu é de 3,3%, o que corresponde a 244 milhões de pessoas, com um aumento de 41% entre 2000 e 2015. No Brasil vivem cerca de 2 milhões de imigrantes. Os refugiados, segundo dados do Ministério da Justiça, somam 9.552 pessoas. São de 82 nacionalidades, e tiveram sua condição de refugiados reconhecida até dezembro de 2016. Os maiores grupos que atualmente solicitam refúgio no Brasil são sírios e venezuelanos
No Rio Grande do Sul, um dos Estados mais buscados pelos migrantes, o contingente de pessoas em situação de mobilidade humana chega a 108 mil. Deste total, 22,5 mil integram os chamados “novos rostos”, que chegaram a partir de 2011. As procedências mais expressivas dessa nova “onda migratória” são de migrantes oriundos do Haiti, Senegal, Gana, Colômbia e Venezuela.
Em sua Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado, celebrado em 14 de janeiro deste ano, o Papa Francisco nos convida “a acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e refugiados”. Formamos uma só família humana. Acolher, proteger, promover e integrar o migrante, exige que ele seja incluído em nossas comunidades para enriquecer o nosso modo de vida com a ‘bagagem’ cultural que eles trazem para o nosso país.
O acolhimento pressupõe o diálogo, o respeito à sua cultura e suas convicções religiosas; o atendimento de suas necessidade básicas e sua inserção no mercado de trabalho. Sempre é importante lembrar que a vida é feita de encontros e que, por isso, precisamos ter braços abertos, sem medo para acolher. E um dia, depois de termos vividos como cidadãos cristãos, vamos querer ouvir: “Vinde, benditos de meu Pai; Eu era peregrino, andarilho, forasteiro, migrante e me acolhestes” (Mt 25, 31-46).
Somos convidados a construir a cultura do encontro. Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

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