ANO: 25 | Nº: 6281

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
23/06/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Do oba-oba emblemático ao mi-mi-mi sistemático

Conta a lenda que lá na Copa de 70 o governo militar capitalizou o entusiasmo futebolístico tupiniquim não só para atiçar o patriotismo inerente à prática e ao discurso militar, mas também, para acobertar e ocultar inúmeros abusos inerentes às ditaduras militares.

Enquanto a maioria vibrava com os gols, o desempenho e a histórica conquista da seleção brasileira, muitos cidadãos eram torturados e mortos pelo regime que se aproveitou desta conveniente desatenção popular às questões políticas, em função da fanática atenção ao esporte bretão.

Iniciei dizendo "conta a lenda", pois não testemunhei de forma consciente esse momento político futebolístico brasileiro. Eu tinha apenas cinco anos de idade, estava chegando em Bagé junto a meus pais e meu irmão, e não tinha a menor noção desta atmosfera da época. A primeira Copa do Mundo que recordo ter assistido e me interessado foi a da Argentina em 1978, já com treze anos de idade, mas nem sonhava que aquela inacreditável e conveniente goleada sofrida pelos peruanos vendidos, poderia ter alguma conotação política relacionada com a ditadura argentina que foi ainda mais desavergonhada que a nossa, pelo menos no que tange ao uso político do futebol.

Pois bem, passaram-se décadas, o Brasil se redemocratizou, encarou dois impeachments presidenciais sem sobressaltos, e vive agora um momento de plena democracia, ainda que conturbado politicamente em função das indefinições na sucessão presidencial e dos sucessivos escândalos de corrupção que determinaram o impeachment da presidenta Dilma.

Apesar de tudo isso, ainda é possível ouvir lamentos contra a torcida, contra as campanhas publicitárias e a atenção dos meios de comunicação à Copa do Mundo na Rússia e a inevitável participação da seleção brasileira. Parece até que paramos no tempo. Que estamos lá em 70 outra vez. Achar que a atenção ao futebol implica em alienação política é subestimar o amadurecimento democrático do nosso País. É achar que somos silvícolas, incapazes de atentar aos problemas políticos brasileiros e que podemos ser manipulados por interesses ocultos e escusos.

Ora, convenhamos! Acreditar em teorias conspiratórias tem limites. Tentar contaminar a todos com o seu desprezo ao esporte e/ou ao evento parece indicar que a pessoa busca apenas notoriedade por uma postura adotada deliberadamente só para contrariar. Manifestação do desejo de ser "diferentão" só para ganhar atenção. Se não quer assistir a Copa ou a seleção brasileira, troca de canal e não enche o saco. Ah, e quem gosta de assistir a Copa não necessariamente é um abobado da enchente que não sabe separar política de futebol, pois, diferentemente dos anos 70, e, como canta Lulu, estamos plugados na vida, curando as feridas (do 7 a 1) e não vamos sobrar de vítimas das circunstâncias, pois não nascemos para perder. Brasil 2 x 0 Costa Rica.

Olho
Apesar de tudo isso, ainda é possível ouvir lamentos contra a torcida

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