ANO: 24 | Nº: 6083

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
23/06/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Vai, minha tristeza

Naquele tempo, eu era aspirante no então 3º Regimento de Reconhecimento Mecanizado, percebendo soldo de aproximados 11 mil cruzeiros. O que, aliado às remunerações dos colégios onde começava a lecionar foi suficiente para: trocar o fogão de casa por modelo a gás; adquirir uma geladeira; vestir alpacas; comprar um 'fuca' de segunda mão; mas, principalmente, uma eletrola hi-fi, 'último grito', som estereofônico, inaugurada com o disco da Banda dos Fuzileiros Navais entoando “Estrela D’Alva”.
Acordava pelas cinco e meia, escutava um pouco de rádio até me sentir sóbrio e saía às seis e meia quando assomava a jamanta do quartel buscando os militares; e que respeitavam ali a hierarquia castrense, os graduados no banco da frente, os subalternos e os estagiários insones nos assentos do fundo. Escuridão e frio pelas frestas da lona. A sonolência mal desperta, a lembrança da noite anterior e a ginástica dos olhos tíbios eram amaciadas pela voz do capitão José Oscar Segredo desfraldando o repertório agradável de nostálgicos tangos. Que cessavam nas proximidades do pórtico, onde se recompunham uniformes e quepes submissos às continências e formatura.
Antes, o café da manhã no cassino dos oficiais. As mesas se organizavam também pela hierarquia, na sala um aparelho de som. E no ambiente o ruído de um violão com batida diferente e uma voz pequena, baixa. Estranha.
Nunca fui avaro com livros e discos. É gosto sem disciplina. Na época de internato, um cêntimo da mesada era usado para um ou outro, adquiridos em sebos. O disco, o escutava em aparelhos alheios. Ou nas visitas de domingo aos parentes para o almoço reparador.  
Assim que, saindo o comandante e os demais para seus esquadrões avancei ao móvel e tomei a capa: um jovem, com a mão no queixo, um pulôver enrolado; o vinil se chamava “Chega de Saudade”; no verso o comentário de certo Antônio Carlos Jobim dizendo que o cantor era um baiano, “bossa nova”, de 27 anos, “extraordinariamente musical”, e se chamava João Gilberto.
Não me sofri. No sábado, logo cedo, fui à loja do "seu" Romeu Brignol, ainda defronte ao Coreto, e comprei o histórico disco, hoje raro.
A década de cinquenta era palco para o samba-canção; o conteúdo sofrido; “dor de cotovelo”; intérpretes com vozeirão, impolutos, boates esfumaçadas. Até que em meados daquela época, um grupo de jovens de Copacabana e Ipanema, influenciados pela música americana, jazz e até Ravel e Debussy passaram a ensaiar novos acordes, letras voltadas para a natureza, o mar, rimas soltas, letras poéticas, realizando encontros informais na casa de Nara Leão; e se apresentando em espetáculos no pátio das faculdades e colégios. Em um desses, no Colégio Israelita, alguém divulga um anúncio chamando o grupo como membros da “bossa-nova”, consagrando um estilo ou gênero musical que se perpetua apesar do surgimento de outras preferências.
Conta-se que a palavra “bossa” já havia sido usada por Noel em 1930. Em verdade, os pesquisadores dão como nascimento da Bossa Nova o disco “Canção do Amor Demais”, de Elizeth Cardoso, em 1956, aonde ela interpreta as primeiras composições de Tom e Vinícius acompanhada por um violonista desconhecido chamado João Gilberto; hoje, que pena, um excêntrico cheio de dramas familiares e pessoais.
Na mocidade, muitos de nós chamavam de “bosseiros” os caras metidos, os balaqueiros, cheios de grau; os que se encostavam, na frente do Comercial, para ver as gurias das freiras desfilarem depois das aulas. E que rivalizam com os tenentes ou com os habitantes das “repúblicas” no afeto das debutantes.
Hoje Tom, Vinícius, Menescal, Carlos Lyra, Bôscoli, Sílvia Telles, Sérgio Ricardo, Marcos Valle, Leny Andrade, Astrud, Bebel, Johny Alf e tantos outros são nomes e lembranças da construção de um modelo brasileiro que conquistou o mundo, gravado por famosos intérpretes como Sinatra, Fitzgerald, Getz, Pizarelli, ou Krall. E que começou apenas com uma batida diferente. Há 60 sessenta anos.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...