ANO: 25 | Nº: 6258

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
28/06/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Sem carne

A famosa série de animação “Os Simpsons” tem a qualidade de propor uma reflexão crítica por meio do humor. É divertida sem ser besta. No episódio “Lisa, a vegetariana”, a filha de Homer Simpson resolve mudar seus hábitos alimentares após ficar encantada com um cordeiro exposto em um parque para crianças: ela decide não comer mais carnes. Não conseguindo alterar o hábito carnívoro de todos à sua volta, Lisa chega ao seu limite quando Homer decide realizar um grande churrasco em sua residência. Ela, ao ver seu pai anunciar um porco assado como a grande atração do evento, resolve destruir o churrasco jogando fora o animal. Após isso, Homer exige desculpas da filha. Lisa alega que jamais pedirá desculpas “porque estava defendendo uma boa causa”. Em outro dia, no café da manhã, Lisa, muito irritada, decide ir embora de casa para não ter de coabitar com um “carnívoro pré-histórico”.

Em virtude de possuirmos uma natureza que adora a imitação, os açougueiros franceses passaram por uma situação semelhante à de Homer. De acordo com reportagens do The Telegraph e BBC, entre abril e junho deste ano, uma rotisseria, restaurantes que comercializam carnes, uma peixaria e vários açougues foram pichados e tiveram suas vidraças destruídas. O presidente da associação que defende os interesses dos açougueiros artesanais, Jean-François Guihard, disse que o terrorismo realizado por esses defensores dos animais tem por objetivo exterminar uma parte da cultura francesa. Guihard acrescentou que esses indivíduos desejam “impor seu estilo de vida, para não dizer, sua ideologia, à vasta maioria”.

Nunca é custoso rememorar o nível de sanidade que envolve os partidários desses atos de destruição na França. Ao descobrir que um açougueiro morreu no atentado terrorista islâmico, perpetrado em um supermercado em Trèbes neste ano, uma ativista pelos direitos dos animais declarou no Facebook: “Então, você se choca que um assassino foi morto por um terrorista? Eu não; eu não tenho compaixão por ele; há justiça nisso”. Ou seja, o açougueiro é visto como um assassino e sua trágica morte é algo que nos conduz à retidão de caráter, afinal, foi justa. A linha entre essas práticas ideológicas e uma doença mental é bastante tênue.

No interior da rebelião dos “oprimidos”, hiberna o indômito totalitarismo. Institucionalizados ou aparentemente afastados de elos estatais, como se fossem perspicazes agentes de espionagem, seus soldados lutam para implantar ideologias salvacionistas. Tais planificadores sociais afirmam que um mundo melhor é possível ao pensarem que tudo orbita seus umbigos. É um espetáculo de vontades infantis em que os espectadores pagam ingressos caríssimos.

Voltando aos Simpsons, após Lisa ter fugido de casa, ela encontra o indiano Apu, Linda e Paul McCartney. Em um diálogo, Lisa diz que pode ser saudável comendo apenas vegetais, frutas, grãos e queijos. “Eca”, diz Apu, referindo-se ao queijo, afinal ele não come nada de origem animal. “Você deve me achar um monstro”, diz a tristonha Lisa. O indiano responde que sim, “mas há muito tempo que eu aprendi, Lisa, a tolerar os outros em vez de querer impor a minha opinião sobre eles; sabe, pode-se influenciar as pessoas sem rotulá-las [...]”. Com essa lição, Lisa fez as pazes com Homer e retornou para casa. Mais Simpsons, menos ideologias.

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