ANO: 25 | Nº: 6280

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
29/06/2018 Fernando Risch (Opinião)

O desserviço que os Youtubers prestam à literatura

Se você pegar a lista dos livros mais vendidos do Brasil, entre os habituais de autoajuda, religiosos e ficções da moda, você encontrará um vasto rol de livros de youtubers. Esses livros são espécies de biografias, e biografias são livros que contam a história de pessoas relevantes, que fizeram algo interessante, geralmente perto do fim da vida. Todos os youtubers, sem exceção, são jovens, tendo, a grande maioria deles, sequer alcançado os 25 anos. Caso você não seja Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz, com 17 anos, você não merece uma "biografia" tão cedo.

"As aventuras de Netoland", de Luccas Neto, é o livro mais vendido no ranking da Publishnews na semana entre 18 de junho e 24 de junho de 2018. São 12.032 exemplares vendidos. Doze mil e trinta e dois exemplares vendidos. Em uma semana. A obra tem míseras 64 páginas e conta, com muitas fotos e fontes gigantescas, sobre o canal no YouTube do autor. Luccas Neto é o irmão mais novo de Felipe Neto, um dos youtubers mais famosos do Brasil.

Na lista da Veja, Luccas Neto mantém o primeiro lugar, seguido do irmão, com a obra "Felipe Neto – A vida por trás das câmeras", também de 64 páginas e que é acompanhado de um pôster autografado e duas tatuagens. Cabe dizer que este é o segundo livro de Felipe Neto, que também publicou com muito sucesso "Felipe Neto - A Trajetória de Um Dos Maiores Youtubers do Brasil", também com 64 páginas. Imagine o que duas biografias sobre um jovem, com pouco mais de meia centena de páginas, têm a dizer ao leitor.

Num primeiro momento, eu pensava que esses livros prestavam um belo serviço à juventude, fazendo jovens, pouco ligados em literatura, lerem alguma coisa. Eu pensava: não importa o que estão lendo, mas que estejam lendo. Enganei-me. Além de apenas 64 páginas, recheadas de fotos, não oferecerem muito a ser lido, o que faz esses livros terem sucesso não é seu conteúdo, é o autor.

Luccas Neto, o atual cabeça do ranking, é uma cria do irmão famoso, que o injetou no mercado dos canais digitais como um novo produto a ser explorado. Ter fãs é o que faz com que esses livros se vendam, não o que foi escrito. Assim, não tendo muito o que contar, o desserviço é feito. Para que nós disséssemos que eles estariam introduzindo algo de bom à juventude, isso deveria partir do conteúdo, não de número de vendas baseada num sucesso pré-estabelecido em outro segmento.

Para que se avaliasse um serviço prestado à literatura, estes autores, dentre muitos outros da mesma área, que fazem a mesma coisa, deveriam ao menos tentar fazer literatura. Quem lê essas obras não assimila nada, não há semente plantada para futuros leitores: há uma compra, uma folhada e o fim sem legado. Eles poderiam aproveitar sua fama e escrever uma história, qualquer história.

Poderia ser uma história ficcional, contando sobre o amor entre dois Youtubers rivais, que precisam mentir para seu público que se odeiam, mas que se amam na vida privada. No fim, o público descobre tudo, odeia a relação e eles abrem mão do sucesso para viver um amor inexplicável. Está aí, compus esse roteiro infanto-juvenil em trinta segundos, agora é só escrever. Poderia ser uma porcaria de livro, mas, daqui uns anos, com o leitor tendo o hábito de ler essa porcaria (que contém letras e fala sobre alguma coisa), ele procuraria outros livros: melhores, mais maduros, mais compatíveis com seu novo nível de leitura. Mas não era esse o objetivo. O objetivo era vender papel higiênico em folha couché a preço superfaturado para ganhar dinheiro.

Pode parecer recalque meu, visto que sou um escritor que não faço nem uma mísera fração do sucesso que eles fazem – aliás, sequer faço algum sucesso e ainda estou na provação para descobrir se sou medíocre ou não. Mas há algo que eu tenho que esses autores não têm: eu tentei. Eu peguei um arquivo em branco de Word, eu digitei letras, eu contei uma história – que acredito ter coerência – e publiquei-a para que fosse lida, avaliada e criticada. Meus livros têm folhas brancas, com letras pretas e com uma história a ser lida. Eu tentei. Eles não tentaram. Deve ser por isso que eu fracasso e eles não.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...