ANO: 24 | Nº: 6013
30/06/2018 Luiz Coronel (Opinião)

A insustentável leveza de uma crônica

Ah, como eu gostaria de escrever uma crônica tão leve qual pluma ao vento. Que falasse de meu canarinho perneta, que a cada manhã pousa em minha janela. Ou, quem sabe, lembrasse os tristes amantes que se despedem e saem, cada qual por uma porta, cantando sua suave melodia, como nos antigos carnavais. Embora o sol, entre nuvens claras, lembre um ovo frito no espaço, o panorama, social, aqui e alhures, permanece nublado.

Pois já vai terminando o verão. As gaivotas retornam às praias. Barracas, esteiras e cadeiras retiram-se silenciosamente aos seus discretos compartimentos. Nos despedimos de nossos amigos de verão. Sim, existem amigos de verão. A cada ano, com eles nos reencontramos e continuamos nossos praianos assuntos, como se entre nós não tivesse passado, sob a ponte dos dias, o fluxo das estações.

Pergunto: Quem nos ensina a conciliar desalento coletivo com felicidade pessoal? Nosso País é nossa casa e ninguém conserta suas goteiras. Mas não podemos abdicar da alegria de viver. Temos de tirar coelhos da manga, patos da cartola para que a vida não perca o esplendor de sua inesperada fantasia.

Nenhuma palavra melhor define nosso País em nossos dias do que imprevisibilidade. Um homem, uma cidade, um estado e um país não podem viver sem horizontes claros. Quem não sabe o que quer, quando acha não se dá conta, diz o adágio português.

Muito me contentam as fábulas. Com elas, Cristo elevou sua mensagem. Conta-se que em certo país, emoldurado por bananeiras, estavam à deriva, em uma embarcação, 500 homens e mulheres. Eles bradavam perguntas aos quatro ventos: Aonde vamos? Qual é o nosso rumo? A que porto nos destinamos? O barco, senhores e senhoritas, chamar-se-ia Congresso Nacional. Numa praia mais confortável, trinta e seis Homens de Estado, em profunda dúvida, confabulavam: Será que a “senhora” sabe nosso nome? Qual é mesmo a nossa função? Nossa agenda? Uma placa identificaria: Ministério Nacional Reunido.

Não seria hora de guardar nossas ideologias atrás da porta, qual vassouras rabudas? Abdicar de nossos compromissos utópicos, considerando-os um guarda-chuva de varetas quebradas? O lava-jato me faz lembrar Charlie Chaplin em Um Rei em Nova York. Com uma mangueira nas mãos, o velho cômico, lírico e dramático dá um banho no Congresso Americano, marcado pela presença opressora dos macarthistas. Sairemos lavados e espanados desses episódios contemporâneos.

A pretendida leveza das crônicas que se alcance através de um pacto com a alegria, jurando defendê-la contra o caos e os pesadelos, à violência cotidiana, os malabarismos da mentira, acreditando, ao arrepio dos azares, no poder inefável do milagre. Milagre é o povo, vitimado por falcatruas e trapaças, mas, mesmo assim, arrastando a esperança pelas ruas, pelas praças.

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