ANO: 25 | Nº: 6332

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
30/06/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé, 1914

Eis a radiografia da cidade em 1914, segundo um dos tradicionais Dicionários Geográficos muito divulgados na época. Adaptou-se apenas a ortografia.
BAGÉ. Município importantíssimo da região fronteiriça. Limita com os de D.Pedrito, Lavras, Caçapava, Cacimbinhas, Herval e R.O do Uruguai. Há no município terrenos de formação primitiva, notadamente cambriano e carbonífero. O território é levemente ondulado, contando alguns matos e excelentes campos próprios à indústria pastoril. Dispõe de bom sistema hidrográfico, sendo regado pelos rios Jaguarão, Jaguarão Chico, Negro, Piraí, Camaquã, Camaquã Chico; arroios Candiota, Velhaco, Piraizinho, São Luiz, Quebracho, Quebrachinho, Ibirá Mirim, Palma, Traíras etc.
Conta as lagoas Formosa, Lagoão, Vimes, Molho, Dinarte, Éguas, Carpintaria. É percorrido por contrafortes da serra Geral, tendo as denominações locais de Santa Tecla, Olhos d’Água, Bolena, Serrilhada, Tunas, S. Antônio, Aceguá e conta os serros Alegre, Aceguá Chico ou Quietos, Aceguá, Agudo, Baú, Caldeira, Candal, Mina, Vigia, Vigiadeiro, Malcriado, Ouro. O clima é saudável e a média anual de temperatura é de 18º,5. O município constituiu-se sob o regime republicano em 7.10.1892. Em 1912, contava 4502 eleitores federais e 3797 estaduais. Conta sete distritos administrativos, judicias e policiais. Dispõe de forças militares federais e de uma guarda administrativa. Pertence à diocese de Pelotas e conta a paróquia de São Sebastião, criada capela curada em 5.7.1814; freguesia em 5.7.1846. Possui excelente igreja matriz, um dos mais belos templos do Estado, com altar mor e oito altares laterais; capelas da Conceição, S.C. de Jesus, e Santa Tereza (no povoado de seu nome). Conta igreja metodista do Crucificado, lojas maçônicas e associação espírita.
No exercício de 1912 a renda municipal foi de 397:073$338; a federal é superior a 70 contos e a estadual, em 1911, de 424:363$500. O município começou a ser povoado por espanhóis, no meio do século XVII, em que foi fundado o forte de S. Tecla; mais tarde passou ao domínio português. O seu nome deriva de Ibagé, chefe de uma tribo de índios que ali habitou desde os fins do século XVII. Em 18.5.1812 foi fundada a atual cidade, então criada capela curada, tendo como primeiro pároco o padre José Loureiro. Na data de sua criação, pertencia ao então vastíssimo município de Rio Pardo, sendo dele desmembrado e anexado ao de Piratini com a criação deste criado freguesia e município autônomo em 5.7.1846, sendo instalado em 2.2.1847. A primeira câmara era assim constituída: Pedro Rodrigues Borba, João Antonio Rosado, Severino Gonçalves da Silva, Joaquim Pereira Fagundes, Antonio Joaquim da Silva, Eleutério José Pereira, Rafael Teixeira Martins. O valor total das transmissões atingiu em 1908 a 2.171:710$323, correspondente à riqueza pública de 97:731$544.
O município possui a forma de um trapézio simétrico, tendo a pequena base voltada para o NE e a grande para o SO. A área registrada em 1913 foi de 7.31317 hectares, no valor venal de 60 mil contos e com 3000 contribuintes. Em 1858 contava 8.210 habitantes; em 1872, 15.732; 1890, 22.692;1900, 28.956; 1.3.1913, 39.605. A agricultura é diminuta em relação a cereais e frutas, mas abundante, em compensação na cultura de vide, existindo alguns estabelecimentos vinícolas. A pecuária é desenvolvida e constitui a maior fonte de riqueza do município. Em 1910 contava 230.998 bovinos, 178.623 ovinos, 25.747 equinos. Predominam as raças Hereford, Durham, Holandesa, Rambouillet, Leicester, Percheron, etc. Os dois maiores proprietários do município são: Visconde de Ribeiro Magalhães, com 24.070 hectares; Tomás Mércio Pereira, com 18.281. Conta 5 estabelecimentos saladerís, cujo movimento anual é enorme. Possui para mais de 350 casas comerciais com capital superior a 4.000 contos. Contas filiais dos Bancos Província e Pelotense e uma agência da Caixa Econômica, instalada em 9.7.1888. É cortado pela via férrea e possui as estações de Candiota, S.Rosa, Rio Negro, Xarqueada S. Antonio, S.Tereza, Bagé, Xarqueada S. Domingos, Rodeio Colorado e
Martins Pons. Possui agência de correio, estação telegráfica, linha telefônica. Conta 24 aulas, 1 colégio elementar e 1.800 alunos (...). Conta 39 ruas e 8 praças. Dentre as primeiras destacam-se: Sete de Setembro, General Osório, Marechal Floriano, Barão do Triunfo, Coronel Ismael Soares, etc. Dentre as segundas: Voluntários da Pátria, belamente ajardinada, Carlos Telles, Júlio de Castilhos. (...). Os principais edifícios são: Igreja Matriz, Intendência Municipal, Theatro 28 de Setembro, Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, Casa de Caridade, Igreja do Crucificado, Mercado, Estação da Estrada de Ferro, Clube Comercial, Clube Caixeral, Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos, Capela da Conceição, Beneficência Portuguesa, Sociedade Protetora dos Artistas, Quartel, etc. Dista 219 km do Rio Grande e 320 de S. Maria. Está ligada à cidade de Melo, R.O. Uruguai, por linha de diligência.
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 Fonte: Octávio Augusto de Faria. “Diccionario Geographico, Historico e Estatistico do Estado do Rio Grande do Sul.” II edição. Livraria do Globo, 1914. Obra pertencente à biblioteca de Bernardino Giorgis Sobrinho.

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