ANO: 24 | Nº: 6039

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
05/07/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Sem carne II

Conscientize-se! Aqui está um belo mandamento repleto de apelos: consumo consciente, emagrecimento consciente, capitalismo consciente, moda consciente, voto consciente, educação consciente e motorista consciente são apenas alguns exemplos. No entanto, basta que você não siga o silabário da “conscientização” para que, provavelmente, passe a ser mal visto pela confraria dos conscientes.

Experimente declarar o voto para algum político que não defende ideias progressistas. Ou comprar uma roupa de alguma empresa norte-americana confeccionada por tailandeses, chineses ou vietnamitas, o que é visto, de maneira simplista, como exploração de mão de obra barata. Não faltarão comentários sobre a sua falta de consciência. Em suma, dizer que alguém deve ser consciente significa um grande eufemismo para chamar-lhe de estúpido. E nada está livre disso. Até a alimentação se transformou em um alvo.

Tramita, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, o projeto de lei nº 87/2018 que institui o programa “Um dia sem carne”. Caso a referida lei, de autoria da deputada Regina Fortunati (defensora do direito dos animais), seja aprovada, ficará determinado que uma vez na semana o cardápio das escolas da rede pública estadual não contenha carne e seus derivados. Isso mesmo! As crianças do ensino público estadual, muitas delas carentes e carnívoras, sofrerão com a restrição legal.

Como justificativa, a representante do povo alega que o projeto é uma forma de iniciar um debate sobre obesidade infantojuvenil, e que o consumo de carne aumenta os índices de ocorrência de algumas doenças. Todavia, como não poderia faltar, no art. 2º, I, fica estabelecido que um dos objetivos da proposta é conscientizar (palavra mágica!) sobre os benefícios que alimentos sem proteína animal oferecem.

Ora, desconsiderar o efeito nocivo que o conforto da vida moderna trouxe, com as pessoas caminhando pouco (ocasionando um menor gasto de calorias), aliado ao consumo excessivo de alimentos industrializados altamente calóricos e fatores genéticos, como atestou no ano passado o médico Cláudio Mottin, do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital São Lucas (PUC-RS), é reduzir de forma pueril a discussão sobre obesidade. Ou seja, não há qualquer indicação de que a carne é a culpada por alguém estar acima do peso.

Aliás, de acordo com a nutricionista Denise Dillenburg, responsável por tese de doutorado que avaliou os resultados que o consumo de carne de novilhos sem a gordura externa acarreta em humanos, não houve alteração no perfil lipídico dos consumidores. Na mesma toada, o cardiologista Iran Castro, estudioso da área, atestou, em 2011, que a carne vermelha (magra) não pode ser a vilã quanto ao aumento nos níveis lipídicos, de colesterol e de pressão arterial em seres humanos, além de ser extremamente benéfica ao organismo. Repita-se: seu consumo apresenta benefícios! Ninguém sente pena das crianças que serão privadas disso? Salutar destacar que resultados científicos semelhantes poderiam ser expostos sobre a carne de algumas espécies de ovelhas, frangos e peixes.

Mas nada importa! Não tardará para que os “higienistas sociais”, em nome de suas ideologias que representam a “fina flor” do desenvolvimento intelectual, criem leis impedindo o consumo de carne. Não haverá escolha. Conscientize-se!

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