ANO: 24 | Nº: 8084

Fernando Risch

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Escritor
06/07/2018 Fernando Risch (Opinião)

Quantos outros Cocielos temos por aí?

Você sabe quem é Júlio Cocielo? Provavelmente não, mas seu filho talvez saiba (ele precisará ter menos de 20 anos pra saber). Júlio Cocielo é YouTuber, tem 25 anos e contratos com Coca-Cola, Adidas, Itaú e mais uma dezena de gigantes. Ele deve ganhar bem, imagine só. E tudo isso sendo muito novo.

O que Júlio Cocielo faz? Como eu disse, ele é YouTuber. Ele faz vídeos. Todos com pouco conteúdo e muita gritaria. Os adolescentes adoram. O que faz com que nós, jovens velhos e velhos jovens, fiquemos surpreendidos quando um total desconhecido do nosso mundo é exposto ao sol, revelando uma realidade que nunca havíamos visto.

Durante o jogo França x Argentina, o francês – e negro – Mbappé deu uma arrancada espetacular, deixando quase todo time argentino para trás e só sendo parado com um pênalti. Com certeza, uma das jogadas mais sensacionais e emblemáticas desta Copa do Mundo.

Cocielo, que tem 17 milhões de seguidores no Twitter, parafraseando-o, postou que "Mbappé faria uns arrastões top na praia". A frase racista, associando o negro ao crime, desencadeou a indignação da maioria. Cocielo disse que era um elogio à velocidade do francês. Ele formularia a mesma frase se a jogada tivesse sido feita pelo loiro Griezmann? Ninguém é inocente ao ponto de minimizar o assunto com uma desculpa simplificada tão estúpida.

No pente fino do tribunal da internet, Cocielo foi exposto a ele mesmo, quando uma enxurrada de outras frases racistas, homofóbicas, misóginas (algumas com apologia ao estupro) e com ofensas a gordos foram desencavadas. Recentemente, numa entrevista ao Roda Viva, Manuela D'Ávila falou sobre o machismo, com uma analogia que pode ser aplicada a qualquer preconceito. Ela referiu-se ao machismo como uma piscina: todos estamos nela, a diferença é quem molha os pés no raso e quem se afoga nela.

Eu sou preconceituoso. E você, leitor, também é. A diferença está em saber distinguir o certo do errado; a diferença está entre rir do preconceito e se ofender com ele. Quando eu penso algo preconceituoso e percebo, sinto asco de ter tido o pensamento. Não parece muito, mas em longo prazo faz diferença, porque muda nossos hábitos, molda nosso cotidiano, trazendo tolerância ao diferente.

Assim como Cocielo, eu fiz muitas piadas de mau gosto e preconceituosas. A diferença, novamente, é que eu reconheço isso, acredito ter mudado e mantenho essa mudança num exercício diário de reflexão. Hoje, quando vou escrever ou falar algo, há um filtro de empatia que me faz pensar se aquilo pode ou não afetar alguém, ou propagar um pensamento que alimenta comportamentos e culturas detestáveis. Às vezes o filtro falha e cometemos erros. Se desculpar é o mínimo, mas não resolve tudo.

Cocielo não cometeu um deslize, mas uma série deles. Ele não falou algo horrível no passado, como eu e muitos outros fizeram (e talvez você fez ou faça, leitor); ele falou algo horrível no passado distante, passado recente e no presente. É um comportamento contínuo e detestável de alguém que, mesmo na maioridade, ganhando muito dinheiro, com o respaldo de gigantes da indústria mundial a associar suas marcas a ele e tendo 17 milhões de pessoas lendo que o ele escreve, não teve responsabilidade sobre suas ações.

Ter responsabilidades de nossas ações não é apenas assumir as consequências do que fazemos, mas não propagar comportamentos e pensamentos detestáveis quando se tem muito poder. "Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades", diria o tio do Homem Aranha. Talvez estejamos preocupados demais com a maturidade do Neymar ao simular faltas e pouco preocupados com o conteúdo de desconhecidos para nós, velhos carcomidos pelo desinteresse, que os jovens consomem diariamente, moldando seu pensamento para o futuro. Quantos mais não são assim?

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