ANO: 24 | Nº: 6039

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
07/07/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Ferroviários e trens

A greve dos caminhoneiros deixou à calva o problema brasileiro: a carência de outros transportes além do rodoviário. Desde muito, os governos privilegiam as estradas abdicando de outros modais, mais cômodos ou baratos, como a ferrovia ou a via fluvial. Estatísticas atuais não deixam dúvidas sobre essa imunidade, agravada com o maltrato do piso asfáltico o que encarece preços e aumenta acidentes. Quem viaja para o exterior encontra situação diversa e até bondes modernos circulando pelas ruas centrais de ambientes turísticas.
Há mais de 10 anos, nesta coluna, ao voltar de Santo Ângelo aonde ministrara curso, sugeri que se criasse também aqui um museu ferroviário tal como havia encontrado naquela cidade missioneira. Fiel ao propósito repeti o artigo outra vez e habitualmente assédio aos administradores sobre a insinuação. Diga-se, projeto de fácil repercussão: nos jardins interiores da antiga Estação Ferroviária se ressuscitariam trilhos e neles se assentaria uma locomotiva transformada num repositório de lembranças ferroviárias: os antigos assentos, o sino, as luminárias; uniformes, os bonés; os mapas nas paredes, instrumentos; bilhetes, passagens; ferramentas e tudo o mais que a comunidade de antigos servidores possam doar instigados por uma campanha adequada e seguramente exitosa, pois representaria a recompensa a uma classe de especial relevância no outrora. Só faltariam a fumaça e o apito das máquinas, mas estes estão para sempre no imaginário dos que habitavam nas cercanias da Praça naqueles tempos memoráveis e saudosos. É difícil a empreitada?
Afirmo que não: basta convocar o Luís Alves e os moradores “do 21”; ou os filhos de quem morava “no recinto”; os que compravam “na cooperativa de consumo”; os que bailavam “na sede” da rua Caetano ou na rua Vinte; os que deslocavam as vagonetas; ou que, magicamente, giravam os trens perto da oficina; os que vendiam pastéis e jornais na gare; os choferes dos carros de praça que levavam os caixeiros-viajantes para os hotéis; os distintos passageiros que chegavam para visitas políticas noticiadas pelo Correio do Sul; os sindicalistas que comandavam as paralisações; a imensa massa disputada pelos partidos nas eleições; os que sofreram sob o autoritarismo; os jogadores da dupla que voltavam de jogos em Rio Grande e Pelotas; os que levavam suas crianças até a Hulha; os que aspiraram os cheiros das charqueadas na curva de São Domingos ou de Santa Tereza; os tucos; os telegrafistas; o menino Alceu que juntava carvãozinho para aquentar a comida na quitanda do seu João; o time do Marechal de Ferro, cuja viagem era alegrada pelo 44; os descendentes dos Garrastazu que integravam o Ferroviário F.C. em pelejas no campo perto do Prado; também os do Iolando Machado, vereador mais vezes reeleito de sua classe; e tantos e mais.
Esses pensamentos acodem quando recordo parte da existência gozada na zona dos trilhos; e de parentes ferroviários como Aracely, tio e agente em São Martim; ou Braulino, gestor na Estação Central. E também por livro recente que desvenda a história das ferrovias gaúchas.
Mas isso fica para outra vez.

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