ANO: 25 | Nº: 6378

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
12/07/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Mal educados

Há uma espécie de antipatia simpatizante com determinados atos humanos. No limite, é como se na aversão houvesse uma atração. Um drama não pode ser mais representativo sobre isso: há um desejo viciante em conhecer a desgraça alheia, por mais que não se deseje tal infortúnio.

Algo semelhante ocorre com as pichações. Mesmo que os olhos tentem se esquivar, é impossível não olhar de soslaio. A despeito de certa indiferença social face à predominância desses rabiscos nas paredes, ainda é difícil não notar o que não deveria estar ali. Instintivamente, o olho busca o que polui a alma para purificar o intelecto.

Aqueles que forem a Pelotas podem ter o desprazer de verificar como esse culto ao horrendo é algo dominante em alguns espaços. Na fachada do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da UFPel e imediações, há um verdadeiro espetáculo de cores com mensagens atreladas a ideologias bem conhecidas: algumas defendem o aborto e a legalização da maconha, ao passo que outras pedem a saída do presidente Temer e dizem “Lula, ladrão, roubou meu coração”. É aquela mesmice bem conhecida. Próximo ao ICH, nos muros do Colégio Estadual Félix da Cunha, encontra-se algo um pouco mais “elaborado”. Estão gravadas com spray as seguintes mensagens: “não a tradição” (sem crase); “escola não ensina”; “prova não avalia”; e “professor não é autoridade”. Universitários e estudantes secundaristas unidos em prol de uma sociedade melhor e mais educada?

Reparem que o desejo “estudantil” é de destruição dos pilares que formaram o ensino ocidental. Quando algum “estudante” defende o fim da tradição, será que ele tem conhecimento que aquela escola tem mais de 100 anos de existência e que é exatamente nas estruturas tradicionais preservadas que se encontra a base para o florescimento humano? Por qual razão a tradição é ruim? Se o professor não é uma autoridade em seu ambiente de trabalho, quem é? O coletivo dos “alunos” que só representa os que não desejam estudar?

Um grande modismo educacional é mencionar que avaliações não mensuram a capacidade do aluno. Há toda uma movimentação global em prol de práticas inovadoras que busquem outras formas de avaliar um aluno, que não uma prova ou teste, levando-se em consideração que cada aluno tem seus limites e tempo de aprendizado. E os resultados educacionais caóticos em avaliações internacionais estão à disposição para se compreender essa realidade. Ora, mas prova não avalia nada, não é? Sobre esse tema, o ex-ministro da Educação e Ciência de Portugal (2011-2015), Nuno Crato, responsável por um salto de qualidade no desempenho dos alunos no Pisa (exame internacional de educação), disse: “A avaliação deve ser vista como algo que ajuda todos a melhorar, que estabelece critérios mais uniformes e ajuda todos a ter objetivos e a ultrapassá-los”. Ainda reforçou Crato que “ao longo da vida, estamos frequentemente a ser avaliados. E quanto mais cedo aprendermos a lidar com a avaliação, mais fácil nos será progredir”. Ou seja, os testes lidam com estímulos para o progresso intelectual. Sem eles, há uma tendência à acomodação e à não compreensão das agruras da vida.

Mas uma pichação no colégio acertou seu alvo, mesmo que por vias tortas: “a escola não ensina”. Correto! Esse não deixa de ser um dos motivos porque temos secundaristas e universitários pichando.

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