ANO: 24 | Nº: 6110

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
14/07/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Esperando o inesperado

No final de maio, após a convocação da seleção brasileira para a Copa de 2018, escrevi um artigo destacando que a convocação não contava com nenhum “Bad Boy”. Pelo contrário, quase todos os convocados poderiam ser enquadrados como “bons moços”. Torci para que isso pudesse influenciar positivamente nossa seleção, mas a eliminação diante da Bélgica provou que não. A seleção não rendeu aquilo que vinha rendendo sob a batuta do Tite e mais uma vez, todos nós – inclusive o Tite – nos iludimos com os resultados pré-Copa. Tudo bem! Segue a vida e continuamos atrás do hexa na próxima Copa em 2022.

O inusitado, porém, é que fomos eliminados pela “inusitada” Bélgica. Um time que apesar de ter feito uma primeira fase promissora, teve imensas dificuldades para vencer a fraca seleção nipônica no jogo anterior à nossa eliminação. E isso não é nada perto da surpreendente eliminação da Alemanha, na primeira fase, após uma derrota para a Coréia do Sul que não tinha mais nada a fazer na Copa.

É lugar comum, mas nunca é demais ressaltar, que o futebol é apaixonante por isso. Se não é o único, certamente é um dos poucos esportes onde a lógica e o previsível costumam se ausentar com desconcertante frequência para alegria dos times pequenos que com suas pequenas torcidas, esperam sempre pelo inusitado, pelo imprevisível, pelo imponderável.

Tanto que em nenhum outro esporte a figura da zebra como símbolo de azar ficou tão popular. O animal listrado e monocromático ganhou essa fama no jogo do bicho, pois ele não pertencia à lista de bichos disponíveis aos apostadores do jogo criado pelo Barão de Drummond no final do século retrasado. Quando o vivente errava ou ninguém acertava o bicho, se dizia que tinha dado zebra e, assim, o simpático afro-equídeo virou sinônimo de azar ou falta de sorte, como preferem alguns.

O futebol acabou sendo o ambiente mais apropriado para que a zebra virasse símbolo do azar, pois em nenhum outro o desempenho recente é tão pouco determinante dos resultados futuros. E, para popularizar ainda mais esta má fama do quadrúpede listrado, contribuiu bastante a zebrinha do Fantástico que narrava e comentava os resultados da Loteria Esportiva da CEF, nos anos 70.

A zebra acabou se transformando, então, numa metáfora de Davi na bíblica luta contra Golias. Davi talvez tenha sido a primeira zebra da história. De lá para cá, ainda que em raras ocasiões, não cessou o encantamento da humanidade pela zebra e, por isso, a tendência a torcermos pelo mais fraco, a esperança pelo inesperado, a espera pelo imprevisível, a torcida pelo imponderável. Não só no futebol, mas no final da novela, do filme ou do livro. O desejo pela surpresa, a quebra da expectativa e talvez isso seja, também, uma forma de acreditar na mudança, na transformação neste mundo tão previsivelmente decepcionante.

Se não fosse a zebra, o Inter não teria sido campeão mundial de clubes nem teria perdido a semifinal quatro anos depois. Se não fosse a zebra a Coreia do Sul não teria eliminado a Alemanha. E, amanhã, a zebra veste quadriculado... como eu, croata desde criancinha.

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