ANO: 25 | Nº: 6334

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
14/07/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

No tempo do trem

Eu morava há duas quadras da Estação Ferroviária, hoje Prefeitura Municipal. De longe se escutava o silvo que indicava a partida do trem e depois outro da locomotiva. Os alto-falantes anunciavam a saída, mensagem seguida de dobrados militares. Vapor e fumaça. As rodas patinavam; as lanternas da máquina apagavam. A primeira classe tinha bancos estofados e mesinha de armar; os da segunda, assentos de madeira. Perto do almoço o copeiro distribuía as senhas da “primeira mesa”, ”segunda mesa”, mas muitos preferiam saborear o “farnel” preparado pela mãe (galinha com farofa); ou pastéis, bolo, alguma fruta. No meio da viagem conferiam-se os bilhetes. O ranger das ferragens e recepção musical indicava a chegada na gare. A estação era ponto de passeio. Quando a gente vinha de Porto Alegre para votar, segunda classe, a recomendação era usar uma tapa-pó por causa da fuligem. A curva de São Domingos obrigava a se ajeitar para o abraçar os pais. Os que moravam mais longe iam de carro-de praça. Guris anunciavam os hotéis, embora a maioria deles se quedassem ao redor da Praça. Como residia perto, um jeito de entretenimento era ficar na sacada assistindo os passantes. Às vezes, ficava sentado na soleira da porta da rua, como quando assisti uma multidão desfilando com o esquife de filho do doutor Gafrée, falecido precocemente em Dom Pedrito. Ou aguardava Leivas, funcionário de uma barraca, que havia feito um gol inesquecível no jogo do Guarany.
São recordações que fluem ao ler obra importante que esgota a história de estradas de ferro e trens no Estado, surgidos em 1869 quando se planejou uma ferrovia entre Porto Alegre e Novo Hamburgo; e depois até Taquara, logo projeto de uma linha entre Rio Grande, Bagé e São Gabriel, tudo através do engenheiro José Ewbank da Câmara que elaborara um Plano para todo o Rio Grande (1872). Em 1878 concedeu-se trinta anos e cobrança de juros sobre o capital para que Miguel Gonçalves da Cunha e James Gracie Taylor explorassem a linha Rio Grande a Bagé, depois transferida para a empresa Compagnie Impériale du Chemin de Fer du Rio Grande do Sul. Aproveito o livro invulgar para transcrever alguns dados. Por exemplo, estações e paradas:
Bagé-Dom Pedrito-Livramento: São Martim, São Domingos, Rodeio Colorado, Parada Pons, São Sebastião (Torquato Severo), Parada Quadros, Vauthier, Parada Passo da Rocha, Leões, Parada Indústria Pedritense de Carnes, Dom Pedrito, Encruzilhada, Km 76, Upacaraí, Km 103, Engenheiro Ataliba Mariante, Km 121, Florentina, Km 140, Carolina, Armour e Livramento.
Bagé- Cacequi: São Martim, São Domingos, Rodeio Colorado, Parada Pons, São Sebastião (Torquato Severo), Parada Saibro, Três Estradas, Parada João Câncio, Ibaré, Parada Von Bock, Suspiro, Parada Lindolfo Waick, Estância do Céu (Martins), Vacaraí, Santa Brígida, São Gabriel, Parada Gabrielense, Tiaraju, Bela União, Parada Três Divisas, Azevedo Sodré, Prada Leônidas, Brasil, Retiro, Parada Alcides Chagas, Guilherme Resin e Cacequi (daqui segue ligação com Livramento).
Bagé- Olimpo- Pelotas: Santa Tereza, Industrial, Quebracho, Km 339, Santo Antônio, Rio Negro, São Geraldo, Augusto Duprat, Seival (Santa Rosa), Dario Lassance, Candiota, Biboca, José Sartori, Maquinista Mezzati, Pedras Altas, Miguel Carreira, Nascentes, Alegrias, Lageado, Brete Cerro Chato, Herval, Basílio, Cruz, Engenheiro Ivo Ribeiro, Cerrito, Pedro Osório (antiga Piratini) ou Olimpo (daqui o trem seguia para Pelotas e Rio Grande).
Em 26 de outubro de 1878, o Decreto nº 7.056/78, ao dispor sobre a construção da estrada de ferro de Rio Grande a Bagé previa o seguinte material para essa linha férrea: 16 locomotivas; um carro de Estado; quatro carrões-salões de primeira classe, sistema americano; 10 carros mistos de primeira e segunda classe, de passageiros, também sistema americano; quatro carros de quatro rodas para correio; 120 vagões para mercadorias; 50 vagões para animais; 24 vagões tipo plataforma e 30 troles para o serviço da linha - todos carros e metade da quantidade de vagões deviam ter freios.
O trecho Rio Grande a Bagé foi inaugurado em 2 de dezembro de 1884 e 12 anos depois mais dois trechos entre Rio Grande e Cacequi foram criados: de Cacequi a São Gabriel, em 24 de agosto de 1886, e o de Bagé a São Sebastião, em 3 de dezembro de 1896. As locomotivas pertenciam à Southern Brazilian Rio Grande do Sul Railway Company Limited. Já o trecho seguinte, entre São Sebastião a São Gabriel, fora contratado com a Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil em 1898.
Circulava no trecho local uma locomotiva Double- Ender, fabricada por Baldwin, segundo o sistema White e tinha o nº 63, material que, possivelmente, depois passou à Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Bagé revela primazias no setor, segundo esse livro especial.

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Fonte: Ápio Cláudio Beltrão. As locomotivas a vapor e as ferrovias no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 2018. O autor é santa-mariense, advogado, professor universitário e membro do IHGRS. Prefácio do historiador Fausto José Leão Domingues, também possuidor do expressivo acervo fotográfico usado.

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