ANO: 24 | Nº: 6064
16/07/2018 Cidade

José Francisco Botelho fala sobre sua escolha como patrono da Feira do Livro

Foto: Divulgação

Escritor bajeense foi eleito por ex-patronos
Escritor bajeense foi eleito por ex-patronos

Jornalista, escritor e tradutor, José Francisco Botelho, 38 anos, foi escolhido o próximo patrono da Feira do Livro de Bagé. E sua indicação carrega uma peculiaridade: foi o primeiro escritor escolhido por uma comissão de ex-patronos, escritores bajeenses que reconheceram a relevância de seu trabalho para o cenário literário, não só da Rainha da Fronteira, como para o Brasil.
A 21ª edição da feira acontece no largo do Centro Administrativo, entre os dias 7 e 11 de novembro. Durante este período, Botelho será, não somente o homenageado da feira, mas, também, o anfitrião, sobre quem recai a responsabilidade de receber os participantes do evento, tanto visitantes quanto os próprios escritores. Mas o escritor tem "cancha" para tal função e carrega um extenso currículo, que inclui dois troféus de segundo lugar no Prêmio Jabuti.
Botelho colabora com publicações de circulação nacional, como a revista Superinteressante, e assina colunas sobre literatura e artes na revista Veja e no blog Estado da Arte (Estadão). Seu livro de contos "A árvore que falava aramaico" recebeu uma indicação ao Açorianos, em 2012, e sua tradução de "Contos da Cantuária", de Geoffrey Chaucer, levou um dos troféus do Prêmio Jabuti, em 2014. Ele levou o troféu novamente para casa no final do ano passado, referente ao segundo lugar, com a tradução do mais famoso romance de William Shakespeare, "Romeu e Julieta". Também traduziu obras de Bram Stoker e Arthur Conan Doyle. Botelho é bacharel em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e doutorando em Letras/Literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A reportagem do Jornal MINUANO conversou com o patrono da feira para saber um pouco mais sobre a indicação e planos para o futuro. Confira abaixo:


Jornal MINUANO - Quando surgiu teu interesse pela literatura e quando tu te descobriste escritor?
José Francisco Botelho - Naquele filme do Scorsese, Goodfellas, o personagem diz: As far as I can remember I always wanted to be a gangster. Igualmente, não recordo uma época de minha vida em que não quisesse escrever. Queria escrever antes de aprender a ler. 
JM - O que a literatura representa para ti?
JFB - O sentido da existência humana neste mundo estranho. 
JM - Qual trabalho teu foi inesquecível para ti? 
JFB - Difícil julgar o que eu mesmo escrevo, mas, por questões de afeto, “A árvore que falava aramaico” e minha tradução dos Contos da Cantuária são os favoritos. 
JM - Como tu recebeu a informação da escolha do teu nome como patrono? O que significou para ti a tua nomeação? 
JFB - Ser patrono da feira do livro de Bagé seria uma honra para qualquer escritor do mundo. Imagina para mim. É uma alegria muito grande pelo carinho demonstrado pela comunidade cultural da cidade. Espero estar à altura da honraria. 
JM - Qual tua relação com Bagé? Ela é refletida, de alguma forma, em tua obra?
JFB - Eu aprendi a fazer versos no campo, em Bagé, com os gaúchos da velha cepa que faziam poemas no repente dos galpões. A primeira vez que ouvi falar em Dom Quixote foi na estância de Santa Margarida, onde minha saudosa tia Cecê passava as tardes lendo os clássicos da humanidade. Minhas primeiras leituras foram na Biblioteca Municipal e na biblioteca do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, onde li a Demanda do Santo Graal, aos doze anos (o livro deve estar lá ainda, um dia vou procurar). Bagé, naturalmente, é inspiração para minhas histórias. Muitos de meus contos se passam em um lugar imaginário, chamado Mirador, que obviamente tem muito de Bagé, embora também tenha algo de Livramento, Lavras, até Pelotas, e outro tanto de pura fantasia. Mirador não é Bagé, mas os lugares que inspiraram as histórias estão aí. Meu conto “Na casa de nossos pais” se passa em um casarão em estilo inglês no fim da Marechal Floriano. O Demônio de Estimação se passa naquela ruela grudada no muro do quartel, atrás do Centro Administrativo. "No dia em que o mundo quase acabou" se passa no pátio do Palacete Pedro Osório. E assim por diante. Um dia vou aí tirar fotos em cada lugar que tenha inspirado um conto. Aliás, eis aí mais um motivo para preservarem a arquitetura da cidade. Não derrubem o cenário dos meus contos! 
JM - No que estás trabalhando agora e quais teus planos literários para o futuro?
JFB - Pretendo lançar, neste ano, o próximo volume de contos, "Cavalos de Cronos". É uma continuação direta de "A árvore que falava aramaico". É raro um livro de contos em dois volumes, mas é isso aí mesmo. Cavalos de Cronos é dividido em duas partes: na primeira, os relatos formam uma espécie de saga familiar fragmentada, em uma região imaginária que transfigura vários lugares no interior de Bagé e Caçapava. A segunda parte contém relatos que se passam em várias épocas e lugares diferentes, e que podem ou não terem sido escritos por um dos personagens da primeira parte... Assim, o livro começa na Campanha e termina na antiga Roma na época das Guerras Púnicas. Passa também pela China na Idade do Bronze. Sim, é para ser estranho mesmo. É algo meio parecido com o que o Leopoldo Lugones fez na Argentina antes do Borges: ombrear a imaginação local com a imaginação de todos os tempos e de todos os lugares.
Além disso, claro, sigo traduzindo em versos a obra de Shakespeare. A próxima peça é “A Tempestade”.
JM - Tens planos de lançar ou relançar alguma obra na feira?
JFB - Vou tentar lançar o próximo, mas não sei se estará pronto. Talvez relance a árvore.

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