ANO: 25 | Nº: 6400
18/07/2018 Luiz Coronel (Opinião)

A estação da colheita

1. Por justa causa, detenho-me ante Jorge Luis Borges para lembrar sua densa e iluminada reflexão sobre o tempo. Para ele, o presente é apenas o fugidio instante no qual o futuro se faz passado. Mas, no entanto, existe o presente do passado, a que chamamos memória; e o presente do futuro, a que chamamos esperança. O texto é de devolver a pluma para o ganso.

2. Já, bem longo, se faz o meu viver sobre o chão deste planeta. Oito décadas se completam neste frio mês de julho do sul de meu País. Tenho comigo a imbatível convicção de que a idade não é o mais sintomático e alarmante sintoma de envelhecimento. A perda da rebeldia,o aniquilamento do entusiasmo e o amortecimento da consciência crítica são fatos que melhor denunciam a superação humana.

3. Enquanto tivermos equilíbrio, sonhos e memórias, a vida está pulsando em direção à colheita de seus melhores frutos. E vice-versa, quando a memória paga excesso de bagagem e a esperança cabe numa pochete ou numa valise de mão, estamos amortecidos ante o tempo. Perdão que o diga, é bem triste um homem sobreviver a sua própria utilidade criativa.

4. A sociedade de consumo estabeleceu e a revolução tecnológica acelerou o processo de dispensabilidade humana. Ao primeiro fio de cabelo branco que desponta uma galera se agita encomendando um epitáfio para o detentor deste testemunho de senilidade. Certas tribos encomendavam e adquiriam velhos, visando usufruir de sua experiência e sabedoria. Não são poucas as pessoas desterradas de seus ofícios, tão só pela conspiração os calendários.

5. Nunca fui precoce. Meus colegas já frequentavam lupanares e eu era ainda coroinha. Nestes dias que correm afoitos, muitos fatos e feitos estão agregados a minha condição de escritor.Ópera-balé a ser encenada, a Comédia Gaúcha em ensaios, a Ópera Farroupilha, a ser encenada em setembro, afora distinções em sucessão que minha cidade natal, Bagé, me concede. Tudo isso e mais os novos livros em gestação fazem com que eu me sinta intenso no redemoinho dos dias.

6. Não aceito banco de reservas, calço as chuteiras, estou em campo, com a bola nos pés, sem firulas. A juventude tem um defeito superável com o tempo: a imaturidade! Levo comigo a certeza de que quando se elege o passado como paraíso perdido, estamos proibidos de colocar os pés no futuro. É preciso pegar o futuro pelas rédeas. E galopar.

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