ANO: 25 | Nº: 6380
25/07/2018 Luiz Coronel (Opinião)

Amargo regresso

"Não se improvisa. Um escrete é um profundo trabalho de gerações."

1. Não me encanta ser amargo com nossos canarinhos. Mas, lá pelas tantas, a seleção me faz lembrar a entrada épica do capitão Eisenhower em terras mexicanas, perseguindo Pancho Villa. Em cada aldeia, encontrava campônios chorando à morte de seu líder à beira de um tosco túmulo. Do alto da montanha, Pancho avistava a tropa americana em retirada: "Chegaram como gaviões e partem como galinhas", teria dito.

"A bola tem um instinto clarividente e infalível que a faz acompanhar o verdadeiro craque."

2. Não creio que outra nação tenha realizado investimento tão elevado em sua seleção para esta Copa do Mundo 2018. Duvido que técnico e atletas tenham faturado tanto em comerciais quanto nossos ídolos telesportivos. Campanhas de desodorante, televisores, hambúrgueres, bancos e cervejas colhiam a glória antecipada de nossa seleção e forravam as burras dos integrantes de nossa de delegação. Sobrou a voz do Casagrande pedindo um pouco de humildade à seleção.

"O futebol antigo era mais rico. Hoje, os jogadores, os juízes e os bandeirinhas parecem soldadinhos de chumbo."

3. Três mundos estiveram em dissonância completa. Nas cadeias de televisão, uma euforia antecipando vitórias. Nas ruas, poucos carros embandeirados. Nos telões de avenidas e estádios, apoteóticas torcidas envoltas em bandeiras verde-amarelas, gritavam qual índios apaches em véspera de guerra.

"Cada vitória compensa o povo de velhas frustrações, jamais cicatrizadas."

4. Nossos meninos promissores se tornam astros luminosos nas grandes equipes europeias, mas quando se trata da seleção brasileira eles não jogam nem o grande futebol europeu, nem o gracioso, ágil, travesso e criativo futebol brasileiro. E a vitória, ultimamente, foge de nossas mãos qual água entre os dedos. E a mais sinistra ou sombria constatação que se extrai da esplêndida Copa da Rússia é que também no esporte, a América Latina coloca-se na rabeira da história, qual um cachorrinho persegue a procissão pelas ruelas da cidade.

"Quem ganha e quem perde uma partida é a alma."

5. Embora o acaso também tenha um apito na boca, a tendência é a verdade se impor sobre o engodo, tal acontece na política. Como regra, vence o melhor. Perna-de-pau é perna-de-pau, craque é craque e estamos conversados. Na política, temos uma corte provocando "suprema" instabilidade, um parlamento que se torna numa assembleia de conchavos e um executivo formado por "notáveis" sacripantas. Há razões para preferir o futebol, mesmo quando em comitiva realizarmos um amargo regresso.

Textos em negrito: Nelson Rodrigues.

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