ANO: 25 | Nº: 6406

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
26/07/2018 João L. Roschildt (Opinião)

É ético nascer?

De tempos em tempos, o mundo acadêmico produz bizarrices, seja para atender a demandas ocultas de uma época demente, seja para lançar nomes no mercado de ideias que possam respaldar teoricamente a insanidade coletiva, resultado de lavagens cerebrais que impedem o uso da razão. O fato é que há uma profusão cada vez maior de teorias que servem como fantasias de Carnaval para ideologias totalitárias que estão saindo da hibernação.

O último tsunami intelectual é o antinatalismo presente no pensamento do filósofo vegano David Benatar e que foi expresso de maneira sucinta em entrevista para a BBC no final do ano passado. Sua teoria, uma versão pasteurizada de ideias abortistas, defende que novos seres humanos não deveriam vir ao mundo em virtude da dor e do sofrimento existentes na vida humana. Para ele, por mais que existam momentos felizes na vida, eles são substancialmente inferiores às dores vivenciadas, o que justifica a ideia de que nascer não é ético: Benatar defende que o aborto é moralmente aceitável por representar um meio para evitar sofrimento futuro. No capítulo 5 do livro Better never to have been (Melhor nunca ter existido), esse intelectual diz que, como os seres vivos só devem ser moralmente considerados quando possuem consciência e essa surgiria em torno da 28ª semana de gestação, as pessoas não viriam à existência antes de tal período. Shazam! Eis a fórmula mágica para permitir o aborto; afinal, ao abortar, não se estaria exterminando a vida de ninguém.

Da teoria para a prática. A mesma BBC entrevistou a ativista espanhola Audrey Garcia. Para ela, não é ético ter filhos biológicos em razão do superpovoamento, da destruição do meio ambiente e do excessivo consumo de recursos. Como seu antinatalismo está vinculado ao veganismo, ela crê que a geração de filhos possa criar uma nova cadeia de consumidores de produtos animais, o que gerará mais sofrimento na natureza. E Audrey, que também é feminista, diz que o antinatalismo atua contra o sistema porque não “supõe que uma mulher está destinada a ser mãe”. Adriano González, outro ativista desta causa, afirmou ao jornal Diario Uno, de Mendoza (Argentina), que os antinatalistas também estão atrelados ao ateísmo e ao anarquismo. A título de curiosidade, a página “Antinatalismo para todos y todas”, no Facebook, conta com cerca de 3 mil membros.

Não é preciso ser um expert no assunto para verificar como há uma congregação de pautas em torno da destruição da vida humana e como, no campo político, o progressismo recepciona essas visões. Também não é difícil entender que, ao afirmar que a existência humana é necessariamente infeliz, os antinatalistas decretam, de maneira absolutamente totalitária, quem pode ou não passar pelas experiências existenciais.

Essa lamentável moda intelectual, que não passa de uma aversão à própria espécie, é uma junção tacanha de várias frustrações individuais com a própria existência em prol de práticas que justifiquem a submissão da vida a vontades essencialmente egoístas. Nessa histeria mental, está decretado que somos infelizes e que podemos descartar os seres vindouros. Somente uma espécie capaz de transtornos mentais variados pode ter a infelicidade de criar tais perspectivas. Mas não seriam exatamente tais ideias uma representação dos momentos infelizes de nossa vida?

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