ANO: 25 | Nº: 6356

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
28/07/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Casas amadas e vazias

"Se as pessoas foram feitas para serem amadas e as coisas para serem usadas, então por que amamos as coisas e usamos as pessoas?" Bob Marley.

É incrível, mas não incompreensível, que em pleno Século XXI boa parte das pessoas ainda não tenha evoluído neste sentido de compreender esta verdade sintetizada na inspirada questão de Bob Marley. Preliminarmente, isso indica que ainda precisamos melhorar muito enquanto pessoas e enquanto humanidade.

Somos naturalmente individualistas, egoístas e materialistas e, por isso, valorizamos e nos apegamos demais às coisas materiais, descuidando, por vezes, do que realmente interessa e que nos foi ensinado várias vezes, por várias pessoas, ao longo de milênios. Alguns entenderam, mas a maioria não!

Sobre o assunto, recentemente assisti um vídeo do professor Mário Sérgio Cortella, falando sobre a tristeza de uma casa arrumada. Destaco os seguintes trechos: "Uma das coisas que mais me entristece hoje é ver uma casa infeliz. E uma casa infeliz é aquela em que você entra e está tudo arrumado. É uma casa sem uso! Você vai na sala e as almofadas estão no lugar, como se a revista Caras fosse entrar para fotografar. Uma casa que não tem nada fora do lugar é uma casa morta. Onde há vida, há perturbação da ordem. (...) Vida é vibração! Vibração é movimento molecular. (...) A casa em ordem é uma casa triste, é a casa em que não se vive mais."

Depois disso ele relembra as antigas festas de aniversário das crianças que fazíamos em casa e que mobilizava parentes, amigos e vizinhos na confecção dos enfeites, docinhos e salgadinhos, fazendo com que a festa começasse dias antes e terminasse dias depois, até que a casa retornasse à velha rotina. Toda essa movimentação, por si, fazia a criança se sentir prestigiada, valorizada e, assim, todos ficavam felizes.

Hoje, as festas duram apenas algumas horas, na casa de ninguém, com petiscos feitos sabe-se lá por quem, e o mais incrível é que não raras vezes os pais contratam animadores de crianças, como se crianças precisassem de alguém para animá-las. Essa talvez seja mais uma evidência de que algo está errado, pois, em situação normal, uma coisa absolutamente dispensável para crianças é um animador.

Conheci pessoas com tanto apego à casa que usavam a cozinha super equipada, só para aquecer água na chaleira. O triturador de alimentos na pia – equipamento raro na maioria das cozinhas – nunca tinha sido usado depois de anos de uso da casa. Os parentes mais próximos ironizavam chamando aquele recinto de "cozinha simbólica". Mas às vezes o não uso se estende para a casa toda que é quase tão asséptica quanto um bloco cirúrgico. Uma casa projetada e construída para ser limpa, com uso e abuso de materiais laváveis e frios. Praticidade mil, aconchego zero! O mais incrível é que muitas vezes estas casas são construídas com generosos espaços para receber amigos, parentes e visitas, mas toda vez que tiver uma reuniãozinha maior, os anfitriões preferem alugar um restaurante ou salão de festa. Vai entender!

A preocupação em tornar a casa fácil de limpar parece indicar, na verdade, que a real intenção do seu idealizador é não usar. Não pode fazer fritura nem fumaça. Ar-condicionado gasta muita luz e aquecedor a gás gasta muita água, sem falar no preço do gás que está pela hora da morte. Festa suja muita louça, churrasco deixa tudo engordurado. E assim, aos poucos, tudo fica muito difícil e complicado e a casa se encaminha inexoravelmente para o desuso.

Bob Marley e Cortella, então, convergiram neste aspecto, pois, se as casas foram feitas para serem usadas e as pessoas foram feitas para serem amadas, é difícil entender por que ainda tem gente que prefere amar as casas a acolher as pessoas dentro delas.

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